DÚVIDAS

O advérbio finalmente

Tenho uma dúvida sobre o advérbio «finalmente» e o seu uso como conector discursivo. Em várias gramáticas, «finalmente» é indicado como marcador do último elemento de uma sequência enumerativa. Infelizmente, não havia exemplos.

No entanto, ao analisar textos reais, encontrei apenas usos diferentes (corrijam-me, por favor, se a terminologia não é a correta);

- Como advérbio temporal – indica que algo acontece após espera: “O projeto finalmente começou.”

- Conector conclusivo – introduz uma conclusão ou culminação de um raciocínio: “Foram analisados vários fatores e, finalmente, decidiu-se alterar a lei.” “O relatório estudou a evolução da despesa pública, o impacto das medidas fiscais e, finalmente, as perspetivas de crescimento económico.”

Porém, se a frase for: “Em primeiro lugar, discutiu-se a educação. Relativamente à saúde, foram apresentados dados. Quanto a transportes, houve propostas. Finalmente, falou-se da cultura.” Neste caso há uma sequência temporal e finalmente introduz o último termo que é temporal. Até aqui entendo.

A dúvida vem como uso numa sequência sem qualquer relação entre si, como marcador de enumeração neutra. Por exemplo, em textos argumentativos ou opinativos com tópicos independentes, uma frase hipotética seria (reforço que foi inventada):

“Em primeiro lugar, penso que a educação é essencial. Relativamente à saúde, considero prioritário investir. Quanto a transportes, creio que o investimento deve ser maior. Finalmente, a cultura merece atenção.”

Neste caso, os tópicos não seguem uma sequência temporal ou lógica, mas apenas refletem pontos de opinião sucessivos. Aqui, «finalmente» soa estranho, já que transmite um valor de conclusão ou encerramento diferente de marcadores puramente enumerativos como “por último”, que apenas indicam o último item da lista.

A minha dúvida é, portanto: Será que «finalmente» pode ser usado de forma natural como marcador neutro do último ponto em listas de tópicos independentes? Não é o mesmo "por último" que "finalmente". Sendo assim, porque teimam as gramáticas em tê-los juntos?

Poderiam ainda ajudar-me a classificar gramaticalmente os diferentes usos de «finalmente»?

Agradeço desde já qualquer esclarecimento sobre a frequência real destes usos e a terminologia adequada para cada valor de «finalmente». Muitos parabéns pelo magnífico trabalho.

Resposta

A designação conector engloba um conjunto de palavras presentes a classes distintas e que se unem sob esta designação por partilharem funções conectivas. Como explica Ana Cristina Macário Lopes, «O seu significado é de natureza procedimental, ou seja, limitam-se a codificar instruções sobre como articular enunciados, funcionando, portanto, como guias para a interpretação» e acrescenta ainda «muitos M[]arcadores] D[iscursivos] podem ser usados para codificar diferentes instruções, em função do contexto discursivo em que ocorrem»1.

Neste âmbito, finalmente é considerado entre os marcadores ordenadores, que têm como função assinalar as partes de um texto e a sua organização. Deste modo, finalmente poderá ter apenas a função de sinalizar a planificação textual, indicando que o segmento de texto que se segue a ele é o último, sem convocar um valor temporal. Este é o valor presente em (1), texto adaptado do apresentado pela consulente:

(1) «Em primeiro lugar, penso que a educação é essencial. Relativamente à saúde, considero prioritário investir. Quanto a transportes, creio que o investimento deve ser maior. Finalmente, temos a cultura, que também merece atenção.”

Finalmente pode ainda sinalizar um valor de ordenação temporal, tal como se observa em (2), texto adaptado do que apresente a consulente:

(2) «“Em primeiro lugar, discutiu-se a educação. De seguida, relativamente à saúde, foram apresentados dados. Em terceiro lugar, houve propostas relativas aos transportes. Finalmente, falou-se da cultura.”  

Em ambos os usos, finalmente pode ser substituído por «por fim» ou «por último» com um valor equivalente.

Disponha sempre!

 

1. Ana Cristina Macário Lopes in Raposo et al., Gramática do Português. Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 2682-2683.

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