DÚVIDAS

A história de arrumar e arranjar

Em resposta [de 20/03/2026] afirmou[-se] que o verbo arrumar, com o sentido de «preparar, vestir ou pôr em ordem» [se usa no Brasil e] que os termos mais comuns, em português europeu, são arranjar-se ou preparar-se.

[No Brasil] seja informal, seja formalmente, empregaríamos arrumar, e nunca arranjar, que se usa noutras acepções.

Diga-se, a propósito, que arrumar, com o sentido de «ordenar ou dispor», já aparecia nos dicionários de Cardoso (século XVI) e de Bento Pereira (século XVII). Em Bluteau (primeiro quartel do século XVIII), dá-se exemplo muito semelhante ao do consulente, «arrumar a roupa (Lintea componere)». Moraes (último quartel do século XVIII) traz outro quase idêntico: «arrumar o fato».

arranjar não se registra em nenhum dos dois primeiros e surge, em Bluteau, apenas no suplemento de 1727, mas como «termo de tanoaria», e não no sentido geral em que viria a ser sinônimo de arrumar. É também como termo de tanoaria que aparece na edição de 1793 do dicionário da Academia das Ciências de Lisboa. Portanto, arrumar é termo mais antigo que arranjar, pelo menos na acepção de que estamos tratando, e arranjar é que parece ter-se instalado, no português europeu, a partir de uma extensão informal de um emprego originalmente restrito ao ofício dos tanoeiros.

Resposta

É bem possível que arrumar e arranjar tenham concorrido na referência à boa aparência de uma pessoa.

O uso de arranjar poderá decorrer da extensão que o consulente propõe, e é plausível que o seja, pois, numa consulta do Corpus do Português, há, pelo menos, uma atestação da Crónica Geral de Espanha (séc. XIV) em que arranjar é interpretado como «dispor» em alusão à organização de exércitos:

(1) «E el rey, como tiinha suas aazes bem arranjadas, mandou que movessen assy como estavam que fossem todos muy ordenadamente [...].»

Arrumar também ocorre na Idade Média, ao que parece também com o significar de «dispor coisas, organizando-as»:

(2) «Affomso Martiz hera em guarda dos navios, fazemdo arrumar aquellas cousas que vinhã [...].» (Crónica do Conde D. Pedro de Meneses, meados do século XV)

Voltando a nosssa atenção para a língua galega, que é muitas vezes útil para estimar a antiguidade de palavras e estruturas, visto ter história comum com o português até ao século XIV, verifica-se que, atualmente, o dicionário da Real Academia Galega regista arranxar (o mesmo que arranjar), mas não tem a entrada arrumar. O Dicionário Estraviz, elaborado numa perspetiva lusófona, acolhe os dois verbos, mas associa a arranjar maior número de aceções. Esta situação poderia sugerir que arranjar tem sido mais produtivo em Portugal e na Galiza, enquanto arrumar se fixou mais nos usos do Brasil.

N. A. – A resposta acima começou por ser enviada diretamente ao consulente, que acrescentou o seguinte comentário, que agradeço:

«Aproveito a ocasião para referir que alguns dicionários etimológicos dão a arranjar o mesmo étimo que a arranchar: o francês arranger, do francês antigo ranc (linha, fileira, posto). No trecho da Crônica Geral de Espanha que citou, trata-se justamente do bom arranjo das azes. Já a arrumar alguns associam o étimo arrumer, do francês antigo, descendente do germânico rūm, que resultaria nas palavras modernas denotadoras de espaço (como a inglesa room e a alemã Raum). Interessa-nos especialmente a neerlandesa ruim, que tem, dentre outras acepções, a de «porão (de navio)», o espaço em que se arrumava a carga, como no exemplo que citou da Crônica do Conde D. Pedro de Meneses

A estas informações muito úteis nada tenho a acrescentar, pois, considero que este é um tópico que requer uma pesquisa aturada que, para já, não posso levar mais longe.

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