Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
O verbo arranjar na linguagem coloquial
Transcrevo em primeiro lugar a questão, para depois expor minhas dúvidas.
«Naturalmente, não é preciso que você o deixe. Basta arranjar outro, de tempos em tempos, eis tudo. Ele tem outras mulheres, não é?»
O trecho acima contém impropriedade(s) vocabular(es)? Cite-a(s).
O trecho acima se refere a um diálogo entre duas personagens do livro “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley. Onde uma personagem tenta convencer outra a trocar de parceiro.

Dúvidas:
1 – A palavra arranjar é uma palavra coloquial? É utilizada apenas no estilo coloquial e não no formal?
2 – A frase de tempos em tempos também é coloquial? Esta frase é errada (existe)?
3 – A frase «Basta arranjar outro, de tempos em tempos, eis tudo». Ela é uma frase coloquial? Contém alguma impropriedade vocabular?
4 – A frase transcrita possui alguma impropriedade vocabular?
Thiago L. Santos Estudante Brasil 5K
1. O verbo arranjar, com o sentido que aparece no texto, é característico da linguagem informal (ou coloquial, se preferir). No entanto, existem outras acepções do verbo que não estão associadas a nenhum registo linguístico em particular. Quando tem um significado equivalente a consertar ou dispor de modo conveniente, o verbo arranjar pode surgir em discursos mais formais.

2. A expressão de tempos em tempos é usada tanto em Portugal como no Brasil e tem uma variante com a preposição a em vez de em. A expressão não pode ser usada em qualquer contexto (por exemplo, num texto científico), mas também não se pode dizer que seja inerentemente coloquial.

3. A frase «Basta arranjar outro, de tempos em tempos, eis tudo» só poderá conter uma impropriedade vocabular na medida em que o contexto sociolinguístico exigir uma formalidade maior, o que não parece corresponder à situação em causa.

4. A frase transcrita (como o texto, em geral) não contém nenhuma impropriedade vocabular, tendo em conta que se trata de um diálogo do qual se pode esperar uma certa familiaridade (e, consequentemente, coloquialidade) entre as personagens. Essa familiaridade traduz-se em usos menos formais como o do verbo arranjar com o sentido de “obter” e ainda o emprego de expressões como “não é?”.

Maria Celeste Ramilo