Novo acordo, ói, mudas, trema, duplas - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Novo acordo, ói, mudas, trema, duplas

A dúvida que se segue refere-se ao Acordo Ortográfico. Concordo em certas partes com o mesmo e discordo noutras. Contudo, há um certo aspecto que me tem vindo a incomodar.

Compreendo, e até concordo, que se façam mudanças que aproximam a escrita da oralidade, como em «acto», que passa a «ato», ou «actual», que passa a «atual». Compreendo também, embora discorde, que se afaste a escrita da oralidade em casos muito consagrados pelo uso, nomeadamente a desaparição do trema. Contudo, não consigo compreender mudanças que afastam a oralidade da escrita quando não são consagradas pelo uso. Parecem-me mudanças negativas.

Por exemplo, a palavra heroico (sem acento ortográfico no «o») não teria a pronúncia esperada de /eˈrojku/ em vez de /eˈrɔj.ku/? Idem para jibóia, bóia, et cætera. Não seria expectável, visto que as duplas grafias pululam no novo Acordo (e muito bem, do meu ponto de vista), que se mantivesse a saudável e indolor dupla grafia também nestes casos? Ou haverá, porventura, alguma regra que permita distinguir quando se pronuncia a vogal na sua versão aberta e quando se pronuncia na sua versão fechada?

(O que me traz, como aparte, uma nova dúvida: qual é a pronúncia expectável das vogais ‹o, e› quando tónicas, não acentuadas e regulares? Será /o,e/ ou /ɔ, ɛ/? Ou será a diferença puramente aleatória?)

Outro ponto em que o Acordo Ortográfico falha, aparentemente, em melhorar a aproximação entre a oralidade e a ortografia, dá-se na questão da tão comentada supressão das consoantes mudas. Ora, aplaudo-a quando se dá em palavras como acto e actual, em que se trata, de facto, de uma redundância totalmente desnecessária. Mas e quanto a casos como acção, accionar, correcta e vector? Não se tratará a consoante muda, aqui, de algo mais que uma superficialidade descartável, para passar a ser uma necessidade à pronúncia correcta das palavras? Pois se pronunciamos /aˈsɐ~w~/ no lugar de /ɐˈsɐ~w~/, /asiuˈnar/ em vez de /ɐsiuˈnar/, /kuˈRɛtɐ/ por oposição a /kuˈRetä/ e /vɛˈtor/ em vez de /vɨˈtor/! Estaremos perante mais um caso em que o Acordo Ortográfico, no lugar de aproximar a ortografia da oralidade, as afasta, ou haverá algures uma regra ortográfica que permita, através da grafia, prever que a vogal é aberta naquelas posições específicas?

Sem mais, agradeço antecipadamente a resposta.

Gil Henriques Estudante Amadora, Portugal 2K

Separo as suas objecções:

1 — Tónica em ói nas palavras graves.

As normas esclarecem que a supressão do acento derivou de não haver uniformidade na pronúncia de algumas palavras (ex.: apoio ¦ô¦ em Portugal, apóio no Brasil). À semelhança do que se fez com cor ¦ô¦ / ¦ó¦, deixou de se distinguir o timbre da vogal com o acento. Terá de ser o hábito da comunidade linguística a determinar qual a prosódia escolhida.

2 — Supressão das consoantes mudas e a abertura da vogal anterior.

Muitas vezes a consoante muda não serve para nada, veja-se o caso de didactismo. Outras vezes, pode mesmo induzir em erro, como no caso do seu exemplo accionar (segundo o Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa aceita-se que a palavra já tenha evoluído para ¦âcionar¦, mesmo mantendo até hoje a consoante muda…). Outro argumento que já tenho citado é o de que não são precisas consoantes mudas para a abrir a vogal em pegada ou em avozinha.

3 — Trema.

O assunto do trema já está há muito fora de discussão em Portugal. O Brasil também no século passado o suprimiu em muitas palavras. Estava só autorizado nas palavras derivadas de nomes próprios estrangeiros, siglas, unidades de medida. Assim continuará em Portugal e no Brasil. Especificamente para o Brasil, deixará de ser usado nos grupos qu ou gu seguidos de e ou de i quando o u se pronuncia (como já acontece em Portugal).

4 — Duplas grafias.

Mais? Nem pensar nisso! Para mim, este é um dos riscos graves do novo acordo: cada um se pôr a inventar duplas grafias, para manter a anterior. As grafias duplas serão só as estritamente necessárias, sempre no critério de que são um desvio na unidade na língua. Aguardemos que o Vocabulário Comum nos diga quais as que ficam oficializadas na unidade (e só essas…).

Diferenças neste texto para o novo acordo:

Termos para Portugal: objeções, didatismo, acionar.

Para o Brasil: linguística.

NOTA: as duplas grafias não implicam alterações obrigatórias na escrita.

Ao seu dispor,

D´Silvas Filho