Maiúsculas nos compostos - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Maiúsculas nos compostos

Se, em trabalhos académicos, ao fazer citações e referências bibliográficas, o hábito português e o Acordo Ortográfico (e não sei se a NP 405) requerem que se iniciem as palavras de sentido pleno do título de uma obra em maiúsculas (deixando em minúscula as não flexionadas — excepto se iniciam título ou subtítulo), o que fazer com o segundo membro de um nome comum composto unido por hífen? Fica em minúscula, por se entender que integra a palavra, dela é parte indissociável, como um "continuum" (isto é, tudo junto é que constitui a palavra significativa) — uma razão semântica?

Ou inicia também esta segunda em maiúscula, pois se mantém a consciência da composicionalidade e a imagem dum lexema que continua a ter (noutros contextos) vida autónoma — uma razão gráfica —, tal como o entendemos nos compostos (lexias complexas, segundo certos autores, algumas delas semelhantes a meras colocações...) não unidas por hífen (ou de estrutura mista), como «fogão a gás», «máquina de lavar roupa», «energia nuclear», «escova do limpa-pára-brisas»:

«A Decoração da Casa de Banho, da Sala de Jantar e do Salão Nobre do Palácio Real»?

Assim, será correcto «Uma Casa à Beira-mar no Século XIX», ou «à Beira-Mar»?

«O Caso do Tenente-coronel da 2.ª Companhia», ou «do Tenente-Coronel»?

«O Guarda-chuva Colorido», ou «O Guarda-Chuva Colorido»?

Tal como "As Pinturas do Salão de Chá"...

E quando um dos elementos é um radical que não tem uso autónomo, no português actual?

«As Auto-estradas no Período pós-Revolução», «auto-Estradas» — ou é como em «As Vias Rápidas»?

«Nem Tudo É Bio-degradável»?; «Incentivar o Micro-Crédito»?

«O Dia-a-Dia [dia-a-dia (?)] de um Luso-Descendente?», «dos Afro-americanos» — um maiúscula e outro não?

E, já agora, nos derivados, por exemplo, o que fazer com um prefixo?

«Notícia das Infra-estruturas no ex-Congo Belga», «das infra-Estruturas», ou «das Infra-Estruturas no Ex-Congo»?

«O Pós-Operatório em Oncologia»?

«A Tradição do Acordo Pré-nupcial na Cultura Ibérica», «pré-Nupcial», ou «Pré-Nupcial»?

Perante tanta variedade, talvez devamos já simplificar — só maiúscula na primeira —, conforme o novo Acordo Ortográfico...

Agradeço a vossa resposta, sublinhando que a dúvida é só relativa às regras da escrita de títulos (artigos, partituras, gravuras, filmes, livros), sem que confundamos com o que a tradição chama nomes próprios (sejam antropónimos, topónimos, orónimos...), pois estamos perante convenções gráficas (algo semelhante sobre prefixos e N.P. foi já respondido em http://ciberduvidas.sapo.pt/pergunta.php?id=2568 e http://ciberduvidas.sapo.pt/pergunta.php?id=2740).

 

Cecília Rodrigues Formadora V. N. Gaia, Portugal 7K

Não se pode analisar a forma das maiúsculas ou minúsculas nos títulos sem considerar o caso dos nomes próprios.

Estabeleçamos em primeiro lugar que um nome próprio composto tem inicial maiúscula nos dois constituintes. A Norma actual e o novo acordo dão o exemplo: Peles-Vermelhas; Rebelo Gonçalves, os exemplos: Meio-Dia (territórios do M.), Direcção-Geral.

Como sabe, a norma actual obriga a que sejam escritos com maiúscula, nos títulos: substantivos, adjectivos, verbos, pronomes que se flexionam, artigo indefinido. Há poucos casos em que possa haver hesitações. Presentemente, quer se trate de nome comum ou próprio, a palavra composta de elementos acima indicados escreve-se sempre com maiúsculas (ex.: «Uma Casa à Beira-Mar», «O Guarda-Chuva Colorido»). Da mesma forma Auto-Estradas, Pós-Revolução, Infra-Estruturas, Pós-Operatório, porque são até unidades semânticas (mas já escreveria: ex-Congo Belga, porque Congo Belga é que era o nome próprio).

No novo acordo, como disse, só a primeira palavra do título e os nomes próprios se escrevem com maiúscula. É preciso então ter cuidado nas unidades sintácticas. Se forem nomes próprios, no meu entender, devem obedecer à regra actual (ex.: embora passe a escrever «O guarda-chuva colorido», escreveria no novo acordo: «Os membros da Direcção-Geral)».

Termos do novo acordo para Portugal: atual, adjetivos, sintáticas, Direção, Autoestradas, Infraestruturas.

Ao seu dispor,

D´Silvas Filho
Tema: Uso e norma
Campos Linguísticos: Maiúsculas/minúsculas; Hifenização