Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Futuro do conjuntivo e perfectivo

Interessa-me a hipótese de que o futuro do conjuntivo em português tenha características do aspecto perfectivo (aoristo). Por isso eu gostaria de perguntar se a seguinte oração admite a interpretação inclusiva («Beto já está cantando no momento em que Ivone entra») ou a interpretação seqüencial («Beto canta depois que Ivone entra»), ou ambas interpretações (aspecto neutral)?

«Se Beto cantar quando Ivone entrar no seu escritório, ela não vai gostar disso.»

Eugênio Geppert Florida, EUA 3K

Analisemos os seguintes enunciados:

(i) Quando o Beto entrar, a Ivone já estará cantando/a cantar.
(ii) Assim que a Ivone chegar, Beto sairá imediatamente.
(iii) Quando o Beto chegar, a Ivone já terá cantado.
(iv) Quando a Ivone tiver cantado, o Beto subirá ao palco.

1. Tempo

O futuro do conjuntivo simples (na subordinada temporal) assinala a posterioridade da acção em relação ao momento em que tem lugar o acto de fala («Quando – amanhã/daqui a nada/daqui a pouco – o Beto entrar...») e coincide com o ponto de perspectiva temporal que permite situar no tempo a acção da subordinante:
• em (i), a acção da subordinante é simultânea relativamente ao ponto de perspectiva temporal/acção da subordinada;
• em (ii), a acção da subordinante é posterior ao ponto de perspectiva temporal/acção da subordinada;
• em (iii), a acção da subordinante é anterior ao ponto de perspectiva temporal/acção da subordinada.

2. Aspecto

O que faz com que haja uma relação de inclusão entre as duas acções [total, como em (i), ou parcial, como em (ii)] ou uma relação de sequencialidade [como em (iii)] não é o futuro do conjuntivo simples (que não tem valor perfectivo), mas sim:
1 – o aspecto lexical: «chegar» é uma acção pontual (uma culminação), e «cantar» é uma acção durativa [uma actividade];
2 – a construção progressiva: «estará cantando/a cantar»;
3 – o advérbio aspectual «já» (que marca incoativamente o processo).

O futuro do indicativo composto «terá cantado» [em (iii)] e o futuro do conjuntivo composto «tiver cantado» [em (iv)] é que têm valor perfectivo: a acção é dada como tendo uma fronteira terminal (admitindo-se um estado resultante). Por isso é que há uma relação de sequencialidade entre as duas acções de cada enunciado – ambas projectadas no futuro.

Nota: o termo aoristo não é comum na terminologia gramatical portuguesa; é algumas vezes usado em lugar do termo perfectivo.

Ana Martins