DÚVIDAS

Elipse parcial do predicado

Na recente campanha do Metropolitano de Lisboa, para reforçar a vigilância dos passageiros sobre a sua segurança e os seus bens, lê-se a seguinte mensagem:

«Se algo não lhe parecer seguro, pode não ser. Na dúvida, recolha o máximo de elementos e avise um funcionário Metropolitano.»

Não há qualquer coisa de forçado na primeira frase: «Se algo não lhe parecer seguro, pode não ser.»?

Percebe-se que «pode não ser» se refere a «algo», mas afigura-se mais natural uma frase como «algo que não lhe pareça seguro pode não ser realmente»?

Porque acontece isto?

Obrigado

Resposta

Com efeito, a frase em questão afigura-se problemática do ponto de vista sintático. A meu ver, a sua construção tem problemas relacionados não tanto com a recuperação do sujeito da segunda oração, mas sim com a recuperação do predicativo do sujeito da forma  ser («pode não ser o quê?»).

Se partirmos do princípio de que a frase em apreço aparenta pretender socorrer-se, na sua construção, da construção designada como elipse parcial do predicado1, uma estrutura que permite omitir todos os constituintes do sintagma verbal, à exceção do verbo, consideraremos que a frase exibe problemas de formação.

No caso da elipse parcial do predicado, o constituinte elidido é recuperado por meio do antecedente linguístico. Vejamos o exemplo (1):

(1) «Gostei muito de conhecer o autor deste livro e o João também gostou [-].»

Na frase (1), a segunda oração apresenta uma elipse parcial do predicado, uma vez que o complemento da forma «gostou» é recuperado por um processo de coesão anafórica que permite recuperar o constituinte «de conhecer o autor deste livro».

As construções de elipse parcial do predicado são comuns em português, particularmente em situações informais, porque permitem a economia linguística. Não obstante, estas construções respeitam algumas regras que asseguram a correta recuperação do material linguístico elidido. Uma delas reside no facto de a elipse parcial do predicado exigir paralelismo lexical, o que significa que «o verbo do antecedente linguístico e o verbo do complemento omitido têm de ser idênticos»2. Ora, o problema da construção parece residir exatamente nesta questão. A estranheza resulta do facto de os verbos da frase não terem a mesma identidade. Tal ocorreria em frases como

(2) «Se algo não for seguro, pode não ser.»

(3) «Se algo não parecer seguro, pode parecer.»

Não obstante nenhuma destas frases traduz a intenção associada primeira, pelo que uma solução possível para resolver o seu problema sintático poderá passar pela verbalização do predicativo do sujeito por meio de um pronome, como acontece em (4):

(4) «Se algo não lhe parecer seguro, pode não o ser.»

Disponha sempre!

 

1. Cf. Duarte e Costa in Raposo et al. (2013). Gramática do Português. Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 2340-2342.

2. Idem, ibidem, p. 2342

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