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Ainda a querela «centenas de milhar» “versus” «centenas de milhares»

Embora o Ciberdúvidas já tenha respondido, e várias vezes, sobre esta recorrente querela “Dezenas/centenas de milhares” “versus” “Dezenas/centenas de milhares”, continuo a ouvir (e ler) que aquele “milhar” é um determinante, logo, invariável.

João Carlos Araújo Lisboa, Portugal 11K

Os numerais milhar, centena e dezena, entre outros, têm um comportamento semelhante, em alguns aspectos, ao dos nomes colectivos e variam em número. Admitem, pois, o plural, pelo que dizemos um milhar de vezes; dois milhares de vezes, como dizemos uma alcateia, duas alcateias.

Entre outras, como a de designar um conjunto com um número exacto (1000, 100 e 10, respectivamente) de elementos, têm ainda a particularidade, quando comparados com a maioria dos nomes colectivos, de admitir – de exigir mesmo, em muitos contextos – um complemento introduzido pela preposição de, que dá informação acerca das propriedades do conjunto que designa.

Com efeito, se quando dizemos alcateia todos sabem que estamos a falar de lobos, no caso do numeral milhar, ou dezena, porque são numerais e não nomes, é preciso indicar o nome a que se devem ligar, tendo este nome, como já vimos, a característica de se ligar ao numeral através da preposição de. Como designam sempre uma entidade plural, os nomes que se lhe associam devem ocorrer no plural: um milhar de maçãs; dois milhares de maçãs;uma dezena de maçãs; duas dezenas de maçãs; etc. O mesmo acontece com um grupo de nomes colectivos que carece, em determinados contextos, de especificação, como, por exemplo:

grupo – «um grupo de amigos»;
equipa – «uma equipa de jogadores»;
conjunto – «um conjunto de livros»;
turma – «uma turma de alunos»;
etc.

Esta é a concordância que aqui no Ciberdúvidas sempre se defendeu, embora reconheça a existência de situações que não obedecem a esta regra. Por absurdo, em nosso entender, dizer “dezena de milhar” é como dizer “conjunto de livro”. É esta a analogia que aqui se tem feito e que nos leva a defender dezena(s) de milhares, porque nunca o nome que complementa milhar, numeral colectivo que encerra em si o valor mil, pode ser singular.

É, por vezes, colocada a questão acerca de como designar então, em matemática, as casas correspondentes às dezenas de milhares e às centenas de milhares.

Não ignoramos que é comum designá-las por “dezenas de milhar” e “centenas de milhar”. Vejamos o número 123 456 e designemos cada uma das casas pelo nome que, habitualmente, lhe é dado:

6 – (casa das) unidades
5 – (casa das) dezenas
4 – (casa das) centenas
3 – (casa dos) milhares
2 – (casa das) dezenas de milhar
1 – (casa das) centenas de milhar

A questão que se nos coloca é, do ponto de vista das regras da formação do plural dos numerais cardinais na língua portuguesa, como justificar o singular de milhar. Argumenta-se, por vezes, que se trata de uma só posição, logo, de uma entidade individualizável. Só que essa individualização existe no núcleo da expressão nominal. Está na palavra casa, como está em todas as outras posições! Recorrendo de novo ao absurdo, porque não dizer, então, “casa da unidade”, “casa da dezena”, “casa da centena”? Parece-nos, pois, que o argumento não pode ser a individualização daquela entidade, porque a entidade que está a ser individualizada é, repete-se, casa e não milhar. Será possível considerarmos que, nas situações em que a expressão em apreço designa a casa que lhe equivale numa sequência numérica, «de milhar» tem valor restritivo, ou limitador do sentido de dezena(s), como «de bilhar» restringe, ou limita, o nome sala em «sala de bilhar»? Nesse caso, da mesma forma que sala de bilhar não é uma sala qualquer, mas sim uma entidade com características próprias e que, por isso, se considera uma expressão lexicalizada, também “dezenas de milhar” seria uma expressão lexicalizada para designar, em matemática, a casa correspondente.

Se considerarmos esta hipótese como válida, então, da mesma forma que dizemos «salas de bilhar» diríamos «dezenas de milhar». Do ponto de vista das regras da concordância, poderemos aceitar esta estrutura, mas teremos de esquecer que dezena é numeral colectivo e que, como tal, deve ser seguido de um nome no plural! Aliás, se fosse um nome colectivo como os que indicámos acima, também não aceitaríamos que tivesse um complemento no singular. Com efeito, não poderemos dizer num discurso formal *um conjunto de livro, assumindo que um conjunto de livros é uma individualidade face a outros tipos de conjuntos que podem formar-se.

E ficamos num impasse.

Assumamos, igualmente, que a expressão «casa das … » perde o núcleo. Nesse caso, e repetindo o exemplo apresentado em cima, diríamos:

6 – unidades
5 – dezenas
4 – centenas
3 – milhares
2 – dezenas de milhar
1 – centenas de milhar
Ou diríamos:
6 – unidade
5 – dezena
4 – centena
3 – milhar
2 – dezena de milhar
1 – centena de milhar

Em qualquer dos casos, continua a ocorrer uma falha na concordância, porque dezena e centena são numerais colectivos que devem, repetimos, ser seguidos de um nome no plural. Aliás, quando o numeral é, por exemplo, milhão e não milhar, o plural, não sendo único, prevalece. Dizemos que um achado arqueológico tem dezenas de milhões de anos.

Pelo exposto, o que no Ciberdúvidas se considera mais regular é o uso do plural na expressão dezenas de milhares.

Não se ignora, porém, que se trata de uma situação não consensual. Fazendo uma pesquisa Google, verificámos que a expressão “dezenas de milhar” ocorre 35 000 vezes em português, sendo 19 700 em Portugal; e “dezenas de milhares” ocorre 287 000 vezes, sendo 59 770 em Portugal. No 'corpus' CETEMpúblico, a primeira aparece 318 vezes, enquanto a segunda surge em 1396 situações. Esta verificação prova apenas que os falantes dos dois lados do Atlântico têm, em relação ao uso desta expressão, as mesmas dúvidas e as mesmas dificuldades e, também, apesar de tudo, a mesma preferência, que é a que no Ciberdúvidas se defende, uma vez que a expressão mais frequente é dezenas de milhares. Reconhecemos, igualmente, que o desenvolvimento da nossa língua nem sempre obedece a regras lógicas como a que aqui defendemos. Mas, visto tratar-se de uma situação dúbia, se esta posição puder servir para clarificar conceitos e levar os falantes a fazerem uma escolha consciente já terá valido a pena. Mesmo se a opção final dos falantes contrariar, daqui a umas dezenas de anos, o que aqui e agora se defende.

Edite Prada