Ainda a palavra desseleccionar - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Ainda a palavra desseleccionar

Parece incrível, mas 4 anos depois voltei a ter a mesma dúvida, tendo encontrado o meu post ao pesquisar pela mesma (http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=14721) e ficado admirado com o facto de já ter perguntado o mesmo há tanto tempo.

O problema mantém-se. Todas as pessoas com quem contacto usam desseleccionar na convicção de que faz parte do vocabulário. A mim ainda me faz "comichão" porque alguma coisa me diz que não está "certo", mas ao mesmo tempo outras soluções propostas não servem.

Quando digo «não servem», refiro-me ao facto de não expressar o sentimento típico de quem... hã... desselecciona uma lista de checkboxes! Se calhar é vício de expressão de quem está habituado a lidar com formulários na Internet, mas a verdade é que desmarcar não encaixa, por algum motivo. Percebo perfeitamente a lógica da palavra e a sua expressividade, mas se digo desmarcar para alguém, fica a olhar para mim sem saber o que eu quero dizer (já fiz esse teste).

Quando digo desmarcar, as pessoas pensam principalmente em anular um compromisso («desmarcar um encontro», «desmarcar uma reunião»). Se tento levá-las para o contexto de um formulário no computador, dizem: «aah! Desseleccionar!». E ficam a olhar para mim como se eu estivesse a utilizar mal a língua portuguesa, não se usa desmarcar no contexto de um formulário de computador (mas, por incrível que pareça, se for num papel, já parece fazer mais sentido).

Ou seja, 4 anos depois da minha dúvida, a palavra já está mais do que assente no vocabulário corrente das pessoas. Será que não devia ser considerado para o dicionário? Ou mantém-se a resistência ao que parece ser um semianglicismo (influência da prefixação inglesa sob uma palavra portuguesa já existente?)

Rui Pinheiro Engenheiro Carcavelos, Portugal 5K

A palavra desseleccionar está bem formada em português. É uma palavra derivada por prefixação, tendo sido associado a seleccionar o prefixo des-, bastante produtivo em português, diga-se.

Sendo uma palavra bem formada e tendo um espaço próprio, ou seja, um sentido específico numa área de saber também específica, não há, estou convencida disso, qualquer problema em a considerar como uma palavra portuguesa.

O facto de não estar dicionarizada pode ser justificado por diversas razões. Uma delas poderá ser o facto de se tratar de uma palavra relativamente recente (data de 1997 a primeira questão colocada ao Ciberdúvidas sobre ela). Outra poderá ter que ver com o facto de ter um sentido bastante transparente, ou seja, que não causa dificuldades de interpretação. Este aspecto é importante, pois na elaboração de um dicionário há, certamente, prioridades e critérios a definir, dado que nenhum comporta todas as palavras de uma língua. E a facilidade de descodificação do sentido poder ser um critério a adoptar.

O consulente coloca muito bem a questão, pois procura saber como sentem a palavra e que sentido aqueles que usam na sua actividade. E se esse grupo se apropriou da palavra e a aplica de forma sistemática, então ela existe.

Claro que causa alguma estranheza, sobretudo porque, contrariamente à maioria de situações em que temos dois -ss- intervocálicos, a leitura de desseleccionar se faz diferenciando as duas consoantes e não as considerando como se fossem um só som. Não é, porém, o primeiro caso deste género na língua portuguesa. Vejam-se: desselar, dessalitrar, dessensibilizar, etc.
Por outro lado, como alternativa a desseleccionar, só me ocorre «anular a selecção».

Edite Prada
Tema: Uso e norma