DÚVIDAS

A sintaxe de inédito e pioneiro

Nas frases:

«Este feito foi inédito em Portugal.»

«Elvira Fortunato foi pioneira na investigação europeia sobre eletrónica transparente»

um manual indica que «em Portugal» desempenha a função de modificador e «na investigação....», a função de complemento do adjetivo.

Apesar de ter validado a informação junto dos alunos, continuei no entanto a questionar-me sobre as razões desta classificação, uma vez que o argumento da mobilidade que justificaria ser modificador tanto pode ser aplicável a um como a outro.

Agradecia a vossa ajuda na melhor forma de abordar a questão.

Resposta

Sim, as soluções do manual estão corretas.

Na primeira frase, o constituinte «em Portugal» é móvel e suprimível, mas não é argumento do adjetivo inédito (que não seleciona a preposição em) e, portanto, é um modificador do grupo verbal (MGV):

(1) [Em Portugal], este feito foi inédito.
(2) Este feito, [em Portugal], foi inédito.
(3) Este feito foi/é inédito.
(4) Este feito inédito surpreendeu Portugal.

Este MGV («Em Portugal») pode ser substituído por outros de natureza semântica diversa:

(5) Este feito foi inédito [durante séculos].
(6) Este feito foi inédito [entre os ginastas lusos].
(7) Este feito foi inédito [pelo grau de dificuldade].
(8) Este feito foi inédito [por terras lusas], [durante anos a fio].

Na segunda frase apresentada pela consulente, o constituinte «na investigação europeia sobre eletrónica transparente», de facto, é móvel, mas a sua supressão põe em causa o conteúdo informacional do adjetivo e, consequentemente, a frase parece ficar (ou fica mesmo) incompleta:

(9) [Na investigação europeia sobre eletrónica transparente], Elvira Fortunato foi pioneira.
(10) Elvira Fortunato foi, [na investigação europeia sobre eletrónica transparente], pioneira.
(11) ? Elvira Fortunato foi pioneira.
(12) ? Ela é pioneira.

Se a estrutura da frase for alterada, constata-se que, quando um adjetivo seleciona um complemento, o sintagma adjetival não pode ocorrer em posição pré-nominal (Raposo, 2013):

(13) Uma cientista [pioneira na investigação europeia sobre eletrónica transparente]
(14) *Uma [pioneira na investigação europeia sobre eletrónica transparente] cientista

Ao consultarmos, por exemplo, o Dicionário da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa, verificamos que, no significado de pioneiro, se regista «que abre caminho em determinado domínio», ou seja, este «determinado domínio» surge, num qualquer enunciado, materializado pela preposição em (para indicar, por exemplo, a área ou o domínio em que a característica do pioneirismo sobressaiu) ou de (para indicar, por exemplo, a origem ou o movimento que determinada pessoa/instituição desenvolveu/explorou):

(15) Elvira Fortunato foi pioneira [na área da neurocirurgia].
(16) Elvira Fortunato foi uma pioneira [do feminismo]. 
(17) *[Do feminismo] Elvira Fortunato foi uma pioneira.

Outro teste que podemos fazer é o da pergunta ao adjetivo pioneira + [preposição] + «quê»/«quem»:

(18) A Elvira Fortunato foi pioneira em quê? ou
(19) A Elvira Fortunato foi pioneira de quê?

Se a resposta às perguntas for o constituinte em causa, trata-se de um complemento:

(20) Na área da neurocirurgia. – resposta à pergunta formulada em (18).
(21) Do feminismo. – resposta à pergunta formulada em (19).

O mesmo não acontece com «Este feito foi inédito [em Portugal].»:

(22) *Este feito foi inédito em quê?
(23) *Em Portugal.

Mas resulta com outros adjetivos que selecionam outras preposições:

(24) O Artur sempre esteve consciente [das suas fragilidades].  (O Artur sempre esteve consciente de quê? Das suas fragilidades.)
(25) A Margarida está necessitada [de carinho]. (A Margarida está necessitada de quê? De carinho.)
(26) A minha irmã era fiel [aos seus princípios/aos seus superiores hierárquicos]. (A minha irmã era fiel a quê/quem? Aos seus princípios/aos seus superiores hierárquicos.) 
(27) O Miguel está, desde sempre, recetivo [a novas ideias]. (O Miguel está, desde sempre, recetivo a quê? A novas ideias.)
(28) «O nosso coordenador está crente [no sucesso do projeto]. (O nosso coordenador está crente em quê? No sucesso do projeto.)

Observações: o ponto de interrogação grafado no início da frase traduz gramaticalidade questionável; o asterisco reflete a agramaticalidade da frase.

Bibliografia consultada:
Veloso, Rita e Raposo, Eduardo Buzaglo Paiva (2013). Adjetivo e Sintagma Adjetival. In Raposo, Eduardo Buzaglo Paiva; Nascimento, Maria Fernanda Bacelar do; Mota, Maria Antónia Coelho da; Segura, Luísa; Mendes, Amália. Gramática do Português (Volume II, Capítulo 31, pp. 1365 e 1366). Fundação Calouste Gulbenkian.

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