A ordem dos apelidos em Portugal - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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A ordem dos apelidos em Portugal

Não entendo bem como funcionam os apelidos em português: quantos há normalmente, qual se põe antes – acho que é o da mãe –, porque alguém que se chama Fernando João Duarte do Carmo Abrantes Fernandes simplifica em Fernando Fernandes.

Gostaria que me explicassem tal coisa.

Muito obrigada.

Laura N. Pérez Vázquez Professora de Galego Ordes, Espanha 19K

Pelo menos, em Portugal, a tradição[1] manda que o nome de um indivíduo seja formado por:

nome próprio (pode ter dois) + apelidos da família da mãe (até dois) + apelidos da família do pai (até dois).

Por exemplo:

1 – Joana Simões Lemos

Em 1, Joana é o nome próprio (o primeiro nome), Simões é o apelido da mãe, e Lemos, o do pai.

Há pessoas que têm cinco ou seis nomes, entre nomes próprios e apelidos:

2 – Manuel João de Almeida Fontes Machado da Silva

Em casos como estes, a pessoa abrevia o nome, de acordo com o seu critério, embora a tendência seja a de usar apenas o primeiro e o último apelido, que é o do pai:

3 – Manuel da Silva

Às vezes, em casos como o de 2, usam-se os dois últimos apelidos, que, como se disse, coincidem geralmente com os que são recebidos pela linha paterna:

4 – Manuel Machado da Silva

O caso que a pergunta nos apresenta – Fernando João Duarte do Carmo Abrantes Fernandes – enquadra-se nas situações descritas em 2 e 3, daí a simplificação Fernando Fernandes.

Pode haver, é claro, exceções a este procedimento, mas o que exponho parece-me o mais típico da atual antroponímia portuguesa.

Note-se que o registo do nome está regulado em Portugal, mas é menos rígido do que acabei de explicar quanto à atribuição dos apelidos e à ordem por que aparecem (ver critérios para formação de um nome no Instituto dos Registos e do Notariado).

 

[1 Nota do consultor (6/01/2018) – Depois de um reparo enviado ao Ciberdúvidas e de um comentário lido no blogue Linguagista, de Helder Guégués –, considero que falar de «tradição» é empregar um termo que, denotando uma escala temporal extensa, terá aplicação discutível a uma prática onomástica mais recente do que se julga. Com efeito, um artigo do historiador Nuno Gonçalo Monteiro – "Os nomes de família em Portugal: uma breve perspectiva histórica". Etnográfica, vol. 12, 1, 45-58 – revela que a ordem apelidos maternos-apelidos paternos não era predominante no séc. XIX e que só em 1931 a legislação veio a impô-la. Trata-se, portanto, de uma ordem que se foi enraizando em Portugal a partir dos anos 30, mas que hoje, pela liberdade que o artigo 103.º do Código do Registo Civil subentende, parece estar em vias de alteração.]

Carlos Rocha
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: nome próprio