A grafia da onomatopeia de gargalhada - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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A grafia da onomatopeia de gargalhada

Endereço-vos uma dúvida relativa à resposta dada à consulente Maria João Duarte, que vos questionou sobre a ortografia da gargalhada: parece-me que o "ah" exclamativo não tem o mesmo som que os "ha" da gargalhada; pois enquanto o primeiro não pressupõe, comummente, uma expiração de ar antecedente, o segundo pressupõe-na, creio, assim se justificando uma diferença na ortografia; ou não será assim e a razão por detrás da resposta dada à referida consulente não tem que ver com esse aspeto fonético?

Antecipado obrigado e votos de continuação do excelente trabalho.

PS: Fiquei com dúvidas acerca da construção frásica do meu comentário.

António Alfaia Estudante Santo António das Areias, Portugal 8K

Em primeiro lugar, convém referir que as chamadas «onomatopeias autênticas (como glu-glu, tic-tac, etc.), não só são pouco numerosas como a sua escolha é de certo modo arbitrária, pois são a imitação aproximada e já meio convencional de certos ruídos (compare-se o português ão-ão, o francês ouaoua e o alemão wauwau)» (Ferdinand de Saussure, Curso de Linguística Geral, 3.ª edição, Lisboa, Publicações D. Quixote, 1977, p. 127; veja-se, também, Carlos Ceia, E-Dicionário de Termos Literários).

Em segundo lugar, e no que diz respeito mais concretamente à onomatopeia em análise, será importante sublinhar que a letra h «em português é consoante muda, pelo que não representa só por si qualquer som [...]. O h inicial, igualmente mudo e geralmente etimológico, era aspirado no latim até fins da República Romana, tal como sucede hoje também em várias línguas germânicas, por exemplo» (Fernando Venâncio, nesta resposta; Infopédia). Deste modo, a opção pelo h gráfico, neste caso em início de palavra, não produzirá, actualmente, qualquer tipo de efeito audível (incluindo-se, aqui, a referida libertação de ar mencionada pelo consulente). Além disso, tal como referem Cunha e Cintra, na Nova Gramática do Português Contemporâneo, «quase todos os sons da nossa fala são produzidos por expiração» (p. 25).

Assim, e tal como consta, por exemplo, do Dicionário Priberam, convencionou-se que «ah! ah! ah!» seria a expressão representativa, em português, da gargalhada. Será igualmente importante não descurarmos o facto de a interjeição Ah, no latim, já conter em si, entre outras, a ideia de «alegria, zombaria» (Dicionário Houaiss).

Quanto à construção frásica do comentário do prezado consulente, chamaria a atenção apenas para a utilização da conjunção (neste caso, coordenativa explicativa) pois. Segundo Cunha e Cintra (op. cit., pp. 642-645), emprega-se a vírgula «para separar as orações coordenadas sindéticas, salvo as introduzidas pela conjunção e», assim como «para separar as orações subordinadas adverbiais». Ora, deste modo, e neste caso concreto, aconselharia, portanto, a colocação de pois entre vírgulas, já que, logo a seguir a esta conjunção, surge uma oração subordinada temporal, introduzida pelo conector enquanto: «o ah exclamativo não tem o mesmo som que os ha da gargalhada, pois, enquanto o primeiro não pressupõe, comummente, uma expiração de ar antecedente, o segundo pressupõe-na [...].»

Pedro Mateus
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: interjeição
Áreas Linguísticas: Fonética; Ortografia/Pontuação