DÚVIDAS

A sintaxe do verbo sonhar
«Sonhar a subir»/«sonhar em subir»/«sonhar subir»... «Com tantos pecados cometidos, nem sequer posso sonhar a subir ao reino dos céus», ou «Com tantos pecados cometidos, nem sequer posso sonhar em subir ao reino dos céus», ou «Com tantos pecados cometidos, nem sequer posso sonhar subir ao reino dos céus»? No Dicionário Houaiss encontrei a frase exemplificativa «sonha em ser advogado». Resta saber se esta construção se usa em português de Portugal.
Ainda as formas de tratamento
Apesar de diversas vezes já questionado, acerca do tratamento na segunda pessoa, ainda tenho as seguintes dúvidas: Em questões anteriores referiu-se que o tratamento pelo nome utiliza sempre a forma verbal na 3.ª pessoa: «O Pedro vai para casa?» Supondo que estamos num grupo de amigos, num tratamento informal e desejo fazer a mesma pergunta a um amigo, diria: «Pedro vais para casa?» Aqui já utilizo a segunda pessoa. Ou será que está subentendido «Pedro, (tu) vais para casa?»? A mesma questão reside na segunda pessoa do plural. Embora já não seja utilizada actualmente, ainda se encontra com frequência na linguagem escrita a utilização do vós para nos dirigirmos a uma pessoa de um modo formal: «Vós ides para casa?» Como ficaria se me dirigisse à mesma pessoa pelo nome ou pelo seu título: «Vossa Excelência ides para casa?» ou: «Vai para casa?»? «Vossa Alteza deseja»... ou: «Vossa Alteza desejais...»? Dado que se me dirigisse por vós utilizaria a 2.ª pessoa, com ides e desejais, parece-me que o tratar pela 3.ª pessoa (comparável ao você) é uma forma menos formal e menos própria. Por outro lado soa-me melhor a seguinte forma: «Vossa Alteza ide para casa?» Mas esta forma deve estar incorrecta. Uma outra questão. Como faria para me dirigir a um grupo heterogéneo de pessoas (isto é, com pessoas a quem me dirigiria por tu, outras por você e outras por vós ou vossa excelência). Se me dirigisse por «vocês» estaria a ser incorrecto às vossas excelências, se me dirigisse por «vossas excelências» significaria que na realidade estaria a me dirigir apenas a algumas delas ignorando as restantes. Será que a única possibilidade será «Os senhores»?
A regência do verbo assegurar
Num dos testes da edição de 2008 do Campeonato da Língua Portuguesa surgiram algumas dúvidas sobre a regência do verbo assegurar. A Comissão Técnico-Científica do CLP enviou nessa altura a todos os participantes um detalhado esclarecimento sobre a regência desse verbo que, em resumo, concluía o seguinte: 1) O verbo assegurar não pede preposição quando não se encontra conjugado como reflexo. Exemplo: «Asseguro que eles estiveram presentes.» 2) Quando verbo pronominal reflexo exigirá o regime de. Como exemplo, temos a frase: «Assegurei-me de que a porta não estava aberta.» A frase que deu origem ao debate sobre este verbo aparecia num dos testes do CLP e era a seguinte: «Posso assegurar-vos de que todas as nossas especialidades terão zero calorias.» A Comissão Técnico-Científica e muitos dos participantes no CLP considerámos que a frase continha um erro, pois, baseando-nos no argumento 1) anterior, dever-se-ia escrever «Posso assegurar-vos que todas as nossas especialidades terão zero calorias». No entanto, e apesar do debate, continuo com uma dúvida sobre este assunto. Já anteriormente a enviei à CTC, mas sem resposta, talvez porque depois de finalizado o CLP a Comissão logicamente já não se encontre em funções. Passo a explicar, pois, a minha dúvida. Está claro que o verbo assegurar-se sempre irá acompanhado da preposição de, já que «eu asseguro-me de alguma coisa/disto/daquilo». Também é lógico não ser necessária a proposição em casos como «eu asseguro à Maria que tudo está bem», ou, de maneira mais simples, «eu asseguro à Maria isto/aquilo», não fazendo qualquer sentido dizer «eu asseguro à Maria disto». Mas: estando claro que posso «assegurar alguma coisa a alguém», posso ou não «assegurar alguém de alguma coisa»? Para tentar explicar a diferença entre as duas frases, diria que na primeira o que se realça é o que se quer assegurar (o facto), enquanto na segunda o importante é quem se quer assegurar (a pessoa). Por outras palavras, o problema reside em saber se o verbo assegurar (no sentido de «assegurar alguém») pode ou não ter o mesmo significado que «dar uma certeza». É que, nesse caso, eu poderia dizer: «Asseguro à Maria que tudo está bem»; mas poderia também dizer correctamente: «Asseguro a Maria de que tudo está bem» — neste último caso, dar à Maria a certeza de algo. Se esta segunda frase for correcta, poderemos perfeitamente distinguir uma frase da outra utilizando os pronomes correspondentes: «asseguro-lhe que tudo está bem», por um lado, e «asseguro-a de que tudo está bem», por outro. Neste contexto, a ambiguidade aparece quando o pronome de complemento directo e o pronome de complemento indirecto coincidem; é o caso de vos, o que nos leva precisamente à frase que aparece no texto do CLP. Dar-se-ia nessa situação o caso particular em que: «assegurar-vos (CI) que tudo está bem», por um lado, e «assegurar-vos (CD) de que tudo está bem» estariam ambas correctas (pois os pronomes de CD e CI coincidem). No texto do CLP 2008 ocorria essa situação sem que se pudesse diferenciar se o vos se referia a um complemento directo ou a um complemento indirecto. Ou seja, poderia considerar-se correcta a frase do texto: «Posso assegurar-vos de que todas as nossas especialidades terão zero calorias.» Eu estaria a assegurar um grupo de pessoas (CD) de alguma coisa. A frase «assegurar-me de alguma coisa» — que admitimos correcta no início deste texto — seria assim perfeitamente compatível com «assegurar-vos (CD) de alguma coisa» e corresponderia ao caso particular em que quem assegura e quem é assegurado são a mesma pessoa. Deixo à vossa apreciação esta dúvida, com um certo ar de sofisma, e espero sinceramente que seja possível entendê-la. Agradeço desde já a atenção dispensada e, talvez, alguma resposta esclarecedora.
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