DÚVIDAS

Sobre o nome das letras
Luiz Gonzaga/Zé Dantas Luiz Gonzaga Lá no meu sertão Pros caboco lê Tem qui aprendê Um outro ABC O jota é ji O ele é lê o ésse é si Mas o erre Tem nome de rê Até o ypsilon Lá é pssilone O eme é mê O efe é fê O gê chama-se guê Na escola é engraçado Ouvir-se tanto ê a bê cê dê fê guê lê mê nê pê quê rê tê vê e . Cada vez mais se ouve a designação "guê" para a letra "gê". O dicionário da Porto Editora só na 7.ª edição introduziu essa designação, pois nas anteriores bem se pode procurar pelo "guê", que não se encontra. Também eu nada tenho contra o "guê", embora nunca tenha ouvido ninguém dizer "guê 3" nem ponto "guê" nem "bê cê guê". Mesmo pessoas que estão firmemente convencidas de que a letra se chama "guê" dizem "esse gê" se pretendem comprar cigarros dessa marca. Esse facto leva-me a pensar que efectivamente o nome da letra é em português "gê". Claro que, no ensino básico, os professores não estão a ensinar os nomes das letras e por isso utilizam designações mais próximas dos valores mais habituais das letras, e assim o "guê" surge para não se confundir com o "j". Já farto de discussões acerca dos nomes das letras, admirei-me que na aprendizagem do Grego os nomes (além dos valores) das letras fosse a primeira coisa que se ensinava, enquanto no Latim os nomes das letras nunca apareciam e nem sequer consegui ainda encontrar qualquer manual que os referisse. Isso espantou-me até porque a noção de que os nomes das letras portuguesas vêm dos nomes latinos é muito forte (e correcta). Não vou desvendar a minha fonte, embora bastasse um "link", pois foi na "net", mas acabei por encontrar a solução para esses problemas. Foi Varrão quem sistematizou o modo de dar nome às letras. Seguindo o que já era tradicional no Latim, decidiu distinguir as oclusivas das fricativas, sibilantes e líquidas, e assim o "e" de apoio às consoantes ora se coloca depois da letra ora vem antes: be, de ... ge (em Latim, o "g" era oclusiva), etc; ef, el, em, en, er, es. Ora, cá está desvendado o mistério de ser efe e não fê! Mas sobram outros mistérios... O "zê" deveria ser "eze", o vê" deveria ser "eve". Aqui entra a história do alfabeto latino. O "z" foi uma incorporação tardia, tal como o "v" (e o "j"), e por isso quem lhes deu os nomes não seguiu os princípios de Varrão. Nessa época o "cê" lia-se "kê", e o "gê" lia-se "guê". A evolução fonética levou a que o "c" e o "g" deixassem de ser oclusivas quando seguidas por "e" ou por "i". Mas como os seus nomes já estavam constituídos, com o apoio no "e" depois, ficámos com o cê e com o gê, tal como os lemos hoje em Português. Ninguém diz para introduzir um "u" (mas repare-se em "qu"). Em suma, tenho dois argumentos para defender a designação "gê" como a mais correcta em Português. A leitura dos acrónimos e os princípios de Varrão.
Ainda as formas de tratamento
Apesar de diversas vezes já questionado, acerca do tratamento na segunda pessoa, ainda tenho as seguintes dúvidas: Em questões anteriores referiu-se que o tratamento pelo nome utiliza sempre a forma verbal na 3.ª pessoa: «O Pedro vai para casa?» Supondo que estamos num grupo de amigos, num tratamento informal e desejo fazer a mesma pergunta a um amigo, diria: «Pedro vais para casa?» Aqui já utilizo a segunda pessoa. Ou será que está subentendido «Pedro, (tu) vais para casa?»? A mesma questão reside na segunda pessoa do plural. Embora já não seja utilizada actualmente, ainda se encontra com frequência na linguagem escrita a utilização do vós para nos dirigirmos a uma pessoa de um modo formal: «Vós ides para casa?» Como ficaria se me dirigisse à mesma pessoa pelo nome ou pelo seu título: «Vossa Excelência ides para casa?» ou: «Vai para casa?»? «Vossa Alteza deseja»... ou: «Vossa Alteza desejais...»? Dado que se me dirigisse por vós utilizaria a 2.ª pessoa, com ides e desejais, parece-me que o tratar pela 3.ª pessoa (comparável ao você) é uma forma menos formal e menos própria. Por outro lado soa-me melhor a seguinte forma: «Vossa Alteza ide para casa?» Mas esta forma deve estar incorrecta. Uma outra questão. Como faria para me dirigir a um grupo heterogéneo de pessoas (isto é, com pessoas a quem me dirigiria por tu, outras por você e outras por vós ou vossa excelência). Se me dirigisse por «vocês» estaria a ser incorrecto às vossas excelências, se me dirigisse por «vossas excelências» significaria que na realidade estaria a me dirigir apenas a algumas delas ignorando as restantes. Será que a única possibilidade será «Os senhores»?
Sobre o verbo mudar
O verbo mudar, na acepção de «trocar de alguma coisa» (por exemplo, de casa), é reflexivo? Ouve-se muitas vezes a expressão «Ele mudou-se de casa», mas segundo dá a entender o Dicionário Sintáctico de Verbos Portugueses, de Winfried Busse, não se trata, neste caso, de um verbo reflexivo, mas sim de um verbo transitivo indirecto não pronominal. Isto significa que a estrutura correcta é «Ele mudou de casa». Confirmam esta minha conclusão? Grato pela atenção pronta que sempre dispensaram às minhas questões.
Oração subordinada adverbial condicional e presente do indicativo
Ao folhear um livro de Português (12.º) da nova reforma, deparei-me com o seguinte exemplo de uma oração subordinada adverbial condicional: «Se está a chover, vou de carro.» Nunca antes tinha visto em qualquer gramática orações condicionais em que ambos os verbos estavam no presente do indicativo. A meu ver, uma oração condicional pressupõe uma dúvida/hipótese, pelo que, se o verbo que precede a conjunção se se encontra no presente do indicativo, constatar-se-á um facto ao invés de se colocar uma hipótese. Esta constatação leva a uma relação causa-efeito e não a uma condição. É a minha dúvida legítima?
A sintaxe do verbo sonhar
«Sonhar a subir»/«sonhar em subir»/«sonhar subir»... «Com tantos pecados cometidos, nem sequer posso sonhar a subir ao reino dos céus», ou «Com tantos pecados cometidos, nem sequer posso sonhar em subir ao reino dos céus», ou «Com tantos pecados cometidos, nem sequer posso sonhar subir ao reino dos céus»? No Dicionário Houaiss encontrei a frase exemplificativa «sonha em ser advogado». Resta saber se esta construção se usa em português de Portugal.
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