Miguel Moiteiro Marques - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Miguel Moiteiro Marques
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Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses e Ingleses) pela Faculdade Letras da Universidade de Lisboa e mestrando em Língua e Cultura Portuguesa na mesma faculdade.

 
Textos publicados pelo autor

As origens que apresenta para a pronúncia do /ɾ/ em Setúbal, realizado foneticamente em vários contextos como [R] (como em carro) em vez de [ɾ] (como em caro), são meramente especulativas e não há bibliografia que as suporte. Não havendo qualquer levantamento da pronúncia do xarroco (ou charroco), nome dado ao falar sadino – considerando o termo falar tal como é utilizado por Cunha e Cintra na Nova Gramática do Português Contemporâneo para referir as peculiaridades da pronúncia de certas regiões que não chegam a ser dialetos locais –, a história local dá alguma contextualização, mas é insuficiente para clarificar esta matéria.

Aquilo que se sabe é que apenas uma parte da cidade de Setúbal teria essa pronúncia, a zona do Troino, velho bairro de pescadores que teve sempre muita imigração da zona de Aveiro e da Fuzeta, mais acentuada a partir de 1860. Ou seja, apenas a zona da Anunciada (presentemente, com a mobilidade dos habitantes sadinos, será difícil localizar a origem geográfica dos falantes). A influência do falar algarvio é visível, por exemplo, na forma como o [u] em final de palavra se pronuncia [ɨ] (p. ex., dado > "dade"; momento > "momente"). Se os falares dessas regiões, eventualmente em conjunto com um hipotético adstrato francês ou outro – «língua ou dialeto falado numa região contígua àquela em que se fala outra língua e que pode influenciar esta última, na fonética, na sintaxe e, sobretudo, no léxico», Dicionário Houaiss –, vieram a resultar na transformação de [ɾ] em [R], é uma incógnita.

É certo que a cidade foi sempre muito aberta ao exterior e teve comunidades estrangeiras muito diferentes, por causa das laranjas e do sal e depois das conservas. Entre 1880 e 1920, a...

A forma cuata está registada no Dicionário de Regionalismos Angolanos (Guimarães Editores, Editora Contemporânea, 1997), de Óscar Ribas, como uma interjeição designativa de incitamento equivalente a «Segura! Agarra! Fila!», como refere o consulente, sendo uma palavra proveniente do quimbundo kukuata, «agarrar».

Trata-se, segundo a mesma fonte, de uma interjeição que «serve para atiçar cães, a fim de perseguirem alguém ou outro animal». Este autor especifica também o modo de uso da interjeição da seguinte forma: «Então, com os dentes cerrados, vai-se emitindo um som sibilante, mais ou menos assim: sque-sque-sque.»

O som sibilante acima referido poderá explicar a produção que o consulente ouviu, formando-se eventualmente uma sequência «cuata-sque-sque-sque-cuata». Outra possível explicação é que es- seja uma partícula de reforço ou um intensificador, à semelhança do des- no popular deslarga, forma que também não está dicionarizada, mas que é usada em contextos informais.

Sendo uma interjeição, poderá haver uma certa flexibilidade conforme o contexto de produção – seja por uma das razões acima propostas ou até por outra razão não vislumbrada –, mas a forma consagrada é cuata.

J. M. Soares de Barcelos refere em Dicionário de Falares dos Açores (Coimbra, Edições Almedina, 2008) que falsa é um sótão ou um «vão entre o telhado e o forro da casa». Refira-se que na ilha do Corvo também se usa a designação torre para referir esta parte de uma casa.

Tem razão a consulente ao dizer que os termos mais precisos seriam renúncia e renunciar, até porque são os utilizados na declaração oficial do papa, como pode ser visto aqui.

A utilização pelos meios de comunicação social dos termos resignar e resignação, como forma de evitar a repetição de palavras e de tornar o discurso esteticamente mais interessante, não seria problemática, não fossem os seguintes aspetos:

a) os termos originais utilizados pelo papa foram preteridos pelos sinónimos resignar e resignação, utilizados frequentemente em títulos de notícias;

b) resignação tem outros valores semânticos que não estão presentes, por exemplo, em renúncia ou demissão, como observa o blogue em mirandês Froles Mirandesas, podendo ser dada uma carga negativa à palavra, associando-lhe termos como abandono, submissão ou conformação.

Independentemente da intencionalidade de quem optou por privilegiar resignar e resignação, aquilo que se verifica, numa análise possível de fazer neste espaço, é que essa escolha, além não ser precisa face ao termo utilizado por Bento XVI, não vai ao encontro daquilo que seriam as opções mais comuns dos falantes de português, nem daquilo que seria a terminologia do direito canónico. Assim:

1) O termo utilizado no Código de Direito Canónico<...

O verbo armar-se usado com o sentido de «fingir-se», como na frase apresentada pelo consulente, deve ter como complemento um grupo preposicional, com a preposição em (1) ou a (2) (cf. Dicionário Gramatical de Verbos Portugueses, de Malaca Casteleiro).

1)    «Armar-se em bom.»

2)    «Armar-se ao pingarelho.»

Parece, pois, haver restrições no recurso a um complemento oracional para formar frases finitas («armar-se que sabe/conhece») ou frases infinitas («armar-se em saber/conhecer»), pelo que o seu uso foge à norma.

Por outro lado, há uma preferência pelo uso de adjetivos com a preposição em e de nomes com a preposição a no grupo preposicional que funciona como complemento de armar-se, pelo que uma alternativa às frases apresentadas pelo consulente será «ele arma-se em conhecido de toda a gente importante da cidade».