Maria Regina Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
 
Textos publicados pela autora

O gerúndio é uma forma verbal terminada em -ndo — cantando, dizendo, partindo, pondo —,  invariável, e que provém do latim. Utiliza-se em várias situações, ora exprimindo o modo, ora integrada na conjugação perifrástica.

Exemplos do emprego do gerúndio na expressão de modo:

Pergunta:

Tem-se verificado o uso da expressão «armas de destruição maciça» enquanto penso que a expressão correcta deveria ser «armas de destruição massiva».

O que acha?

Resposta:

Deverá dizer-se sempre «armas de destruição maciça», e não “massiva”.

O termo português correspondente ao francês massif e ao inglês massive é, sempre foi — registado nos mais diversos dicionários de há séculos —, maciço, que significa «compacto», «sólido», «robusto», «qualidade de quantidade de coisas muito chegadas, muito apertadas», «basto», «cerrado», «qualidade daquilo que existe em grande quantidade».

Quando se começou a falar de armas de destruição que têm um terrível efeito devastador (nucleares ou químicas, por exemplo), aplicou-se a essa destruição o adjectivo maciça: «destruição maciça» («cerrada, densa, que atinge tudo, inclusivamente grandes massas de pessoas»). Como em inglês maciça se diz massive e em francês também massive (feminino de massif), em português recentemente começou a ouvir-se o termo "massiva", tradução literal de uma palavra estrangeira cuja correspondência já existia em português, ou seja, uma palavra desnecessária.

 

N.E. (25/02/2021) – Até meados do século XX e mesmo depois, entre autores normativos, condenava-se o adjetivo massivo, considerado «galicismo grosseiro», como dizia, por exemplo, Vasco Botelho de Amaral (Grande Dicionário de Subtilezas e Dificuldades do ...

Pergunta:

Popularmente diz-se «Quem tem boca vai a Roma», quando a forma correta seria: «quem tem boca vaia Roma.»

Considerando ser a segunda forma a correta, qual é a explicação de «vaia Roma»?

Agradecida pela colaboração.

Resposta:

A consulente começa por afirmar que a conhecida sentença «Quem tem boca vai a Roma» está incorrecta e que a frase correcta seria «Quem tem boca vaia Roma». Depois, pede a explicação da última frase.

A minha resposta vai, assim, conter um comentário sobre a eventual “correcção” das frases e a respectiva explicação.

Quanto à “correcção”, é óbvio que ambas as frases estão correctas. Agora, qual é a frase original? Os dados que tenho apontam no sentido de a frase original ser «Quem tem boca vai a Roma».

Desconheço em que é que a consulente se fundamenta para dizer que é a outra.

Considero que a primeira frase deverá ser a original por cinco motivos, que passo a enunciar.

1. É assim que ela está registada em obras de referência como, por exemplo, o Dicionário de Máximas, Adágios e Provérbios, de Jayme Rebelo Hespanha (1936), a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (1948), o Grande Dicionário da Língua Portuguesa de António de Morais Silva (1949 a 1959), o Livro dos Provérbios Portugueses, da Editorial Presença (1999), o Dicionário de Provérbios, Adágios, Ditados, Máximas, Aforismos e Frases Feitas, da Porto Editora (2000).

2. Este provérbio tem variantes, o que demonstra a vitalidade da ideia aí defendida: «Quem tem língua vai a Roma»; «Quem língua tem a Roma vai e de Roma vem»; «Quem tem língua a Roma vai e vem».

3. Roma entrou no adagiário por causa da sua importância, do seu valor, do seu mérito, e não por aspectos negativos: «Roma locuta est...

Pergunta:

Que significa o provérbio «Mais vale um pássaro na mão que dois voando»?

Resposta:

No provérbio «Mais vale um pássaro na mão do que dois a voar», faz-se uma comparação entre o valor de um pássaro e o de dois. Em princípio, dois pássaros valem mais do que um, valem o dobro, como é lógico. Mas, se alguém tiver de escolher entre um pássaro que já tem preso na mão e a possibilidade de apanhar dois que ainda estão a voar, aconselha a prudência que escolha ficar com o que já possui (embora de menor valor) e não o entregue em troca da possibilidade de apanhar ou de caçar os dois que estão a voar, pois isso é incerto.

Deixando o significado literal e passando para a interpretação, para o que se pretende dizer, está aqui valorizado o seguro em relação ao inseguro, a segurança, a certeza em relação à incerteza, o facto em relação à hipótese, a realidade em relação à promessa. Com este provérbio pretende dizer-se que vale mais o que está seguro na nossa mão, embora de menor valor, do que algo melhor, mas que não é seguro e que pode ser apenas uma mera hipótese, um desejo não realizado: assim, não devemos trocar o certo pelo incerto.

Este provérbio pode ser utilizado em diversas situações. Três exemplos:

(1) Alguém que prefere ter o seu dinheiro numa conta que lhe dá um juro mais baixo mas certo, em vez de o aplicar em acções que podem valorizar o dobro, mas que também podem baixar (sendo incerto, portanto, o que acontecerá), poderá dizer que «mais vale um pássaro na mão do que dois a voar».

(2) Alguém que vende um apartamento por um valor que não era bem o que desejava, em vez de esperar que o mercado evolua positivamente, poderá dizer que «mais vale um pássaro na mão do que dois a voar». É que o mercado pode evoluir positivamente, mas também pode evoluir negativamente. O futuro é algo incerto.

(3) Alguém que prefere um emprego de remuneração ma...

Pergunta:

Gostava que comentassem esta frase (in Público de 17/07/2007):

«Helena Roseta é dos cabeças de lista vencedores uma das que mais competências tem na área autárquica e urbanismo, foi presidente da Câmara de Cascais, é arquitecta de profissão e preside à respectiva ordem.»

Para além da deficiente pontuação, pergunto:

a) Helena Roseta é dos cabeças de lista ou das cabeças de lista? E cabeça de lista não devia escrever-se com hífenes (cabeça-de-lista), tal como cabeça-de-chave, cabeça-de-ponte, cabeça-de-vento, por exemplo?

b) «…uma das que mais competências tem», ou «…uma das que mais competências têm»?

Muito agradecido.

Resposta:

Por vezes, as frases estão construídas de tal modo, que não se adequam bem ao que se pretende dizer. É o caso desta, não só pelas incorrecções detectadas como pela estrutura escolhida. Assim, em primeiro lugar, vou reescrever a frase mantendo a estrutura e fazendo o mínimo de alterações; depois, justifico as opções feitas a respeito da pontuação, do termo cabeça-de-lista e da utilização do verbo ter no plural; finalmente, construo uma outra frase, que considero mais adequada ao que se pretende dizer.

1. Correcção da frase

«Helena Roseta é, dos cabeças-de-lista vencedores, um dos que mais competências têm na área autárquica e na do urbanismo: foi presidente da Câmara de Cascais, é arquitecta de profissão e preside à respectiva ordem.»

2. Justificação

2.1. Quanto à pontuação, as vírgulas agora utilizadas são exigidas para isolar o termo «dos cabeças-de-lista vencedores», que está intercalado entre o predicado «é» e o seu predicativo do sujeito «um dos que mais competências têm»; os dois pontos são necessários após a palavra «urbanismo», pois segue-se uma explicação, uma comprovação relativamente ao que fora dito.

2.2. O termo cabeça-de-lista já está dicionarizado com hífenes e é um substantivo comum de dois, ou seja, o artigo é que indica se se trata de uma mulher ou de um homem: o cabeça-de-lista, a cabeça-de-lista. No entanto, na frase em apreço, deverá usar-se o masculino plural, visto que a referência está feita a todos os cabeças-de-lista: ora, desde que um dos cabeças-de-lista fosse um homem, o termo teria de ser utilizado no masculino plural. Pela mesma ordem de ideias, deverá utilizar-se o indefinido «um», pois refere-se