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O gerúndio

O gerúndio é uma forma verbal terminada em -ndo — cantando, dizendo, partindo, pondo —,  invariável, e que provém do latim. Utiliza-se em várias situações, ora exprimindo o modo, ora integrada na conjugação perifrástica.

Exemplos do emprego do gerúndio na expressão de modo:

(1) «Os trabalhos recomeçaram, processando-se a bom ritmo.»
(2) «Lá foram eles, cantando e rindo

A perifrástica é uma forma de conjugação verbal em que se utiliza um verbo no infinitivo ou no gerúndio e um verbo auxiliar. Por exemplo, a frase «estou a ouvir este programa» — ou «estou ouvindo este programa», como dizem no Brasil — é um exemplo de conjugação perifrástica.

Os auxiliares usados na conjugação perifrástica são os verbos estar, andar, ir e vir, que traduzem diferentes aspectos da acção.

Por exemplo, se for o auxiliar estar, a conjugação perifrástica indica uma acção durativa que decorre num momento específico.

Exemplos:

(3) «Quando entrei, ela estava a dormir (ou estava dormindo) profundamente.»
(4) «Ele está a fazer  o que pode para resolver a situação (ou está fazendo).»

Em Portugal, usa-se o verbo no infinitivo (estava a dormir, está a fazer), mas no Brasil usa-se no gerúndio (estava dormindo, está fazendo).

Com o auxiliar andar, a acção continua a ser durativa, mas é uma acção em que predomina a ideia de movimento repetido.

Exemplo:

(5) «Ele a nda a estudar este assunto há algum tempo (ou anda estudando).»

Na conjugação perifrástica com o auxiliar ir, utiliza-se o gerúndio tanto em Portugal como no Brasil. E com esse auxiliar continua a ideia de duração, de uma acção que se prolonga no tempo, mas que se realiza progressivamente, por etapas sucessivas.

Exemplos:

    (6) « Vou vendo o que acontece.»
    (7) «As luzes iam-se acendendo à medida que ela passava.»
    (8) «O tempo vai passando, e continua tudo na mesma.»

Na conjugação perifrástica com o auxiliar vir, constrói-se uma acção durativa que se desenvolve gradualmente em direcção ao momento ou ao espaço em que nos encontramos.

Exemplo:

(9) «Olhem quem vem chegando!» (frase do comentador brasileiro quando Carlos Lopes venceu a maratona, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 12 de Agosto de 1984)

Em suma, o gerúndio é usado precisamente para traduzir uma acção que se prolonga no tempo. A língua portuguesa tem esta riqueza de poder traduzir diferentes matizes de uma acção.

É diferente dizer eu faço — que é um presente do indicativo, na conjugação simples — e eu estou fazendo — que é a conjugação perifrástica, que utiliza o gerúndio.

Ambas as formas estão no presente, mas a forma simples enuncia um facto actual, pontual, de realização imediata, breve, enquanto eu estou fazendo sugere a duração, eventualmente a demora, o prolongamento no tempo.

Comentando o caso da notícia que nos chega do Brasil, claro que eu não demitira o gerúndio, pois é uma forma verbal que traduz uma realidade diferente da que é transmitida por meio da utilização da forma simples. Suprimir esta forma seria amputar a língua de uma das suas riquezas: veja-se a beleza da frase «A noite vem chegando de mansinho», de Fernando Namora (O Rio Triste)...

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