Maria Eugénia Alves - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Maria Eugénia Alves
Maria Eugénia Alves
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Professora portuguesa, licenciada em Filologia Românica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com tese de mestrado sobre Eugénio de Andrade, na Universidade de Toulouse; classificadora das provas de exame nacional de Português, no Ensino Secundário. 

 
Textos publicados pela autora

Pergunta:

O Dicionário Online Priberam, quando pesquisamos sobre a definição de 'Hífen', fornece-nos a seguinte informação: «hí·fen (latim hyphen, do grego hufén, como um, num só) substantivo masculino [Tipografia] Sinal gráfico horizontal (-) usado na separação de elementos de um composto, de alguns prefixos, de sílabas em fim de linha e de ligações enclíticas, mesoclíticas ou proclíticas. = TIRETE, TRAÇO DE UNIÃO Plural: hífenes. "hífen", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.»

Eu gostaria de saber se não há um erro por parte do Priberam quando afirma que o hífen pode ser utilizado em ligações proclíticas, uma vez que estas últimas possuem nas suas características o facto de apresentarem ausência de hífen (os pronomes clíticos não se unem por hífen às formas verbais às quais revelam ligação). Existirá, então, um lapso no Dicionário Online Priberam que deveria ser corrigido?

Resposta:

Consultado o Dicionário Priberam, verifica-se que  há, de facto, um lapso na questão da próclise, uma vez que, neste âmbito, não se emprega o hífen.

Além disso, no mesmo dicionário, verifica-se que próclise é a «Colocação do pronome átono antes do verbo (ex.: não o queria)». Com este exemplo, verifica-se o lapso referido anteriormente.

No Dicionário Houaiss, bem como no da Academia das Ciências, temos a confirmação do lapso do Priberam:

«Hífen – usado para unir os elementos de palavras compostas, separar sílabas em final de linha e marcar ligações

Pergunta:

«Cruzeiro campeão da copa do Brasil.» ou «Cruzeiro, campeão da copa do Brasil.» Qual maneira está escrita de forma correta? E porquê?

Obrigado pela atenção, Ciberdúvidas .

Resposta:

«Cruzeiro, campeão da copa do Brasil.» é a resposta correta.

Campeão da copa do Brasil tem a função sintática de modificador apositivo do nome Cruzeiro»).

A Gramática de Português, de Maria Regina Rocha, define-o assim: «é um constituinte por meio do qual se dá uma informação adicional sobre o nome, sendo sempre colocado depois do nome e entre vírgulas [ou entre uma vírgula e um ponto].

Ex.: 

«O nosso colega, um cientista notável, vai ser condecorado no dia 10 de junho.»

«Herdei a casa dos meus pais, aquela ao fundo da rua

A <i>Final Four</i> disputou-se mesmo entre equipas portuguesas?

A final da Taça da Liga portuguesa… denominá-la em inglês?!...

Pergunta:

Na frase «Há uma rede de voleibol, na praia», na praia é modificador ou pode ser considerado complemento oblíquo?

Resposta:

«Na praia» é modificador do grupo verbal, pois designa uma circunstância acessória da ação.

Não é selecionado pelo verbo, podendo ser suprimido sem afetar a gramaticalidade da frase.

Por outro lado, o complemento oblíquo é selecionado pelo verbo, pelo que a sua ausência provoca a agramaticalidade da frase: 

Veja-se a Gramática de Português, de Maria Regina Rocha: «O complemento oblíquo é exigido pela regência de verbos que, para completar o seu sentido, necessitam de uma expressão introduzida por uma preposição, ou de um advérbio.

Ex.:

«Os filhos precisam do apoio dos pais.»

«Todos se interesssaram pelo assunto.»

«Ele vai a Évora todos os meses.» = «Ele vai todos os meses.» 

Pergunta:

Gostaria de saber se é correto a utilização da preposição de na seguinte frase: «Ganhe um desconto de até 1000€».

Resposta:

A frase apresenta a conjugação de duas preposições, de e até, que é incomum¹. Segundo Evanildo Bechara, na sua Moderna Gramática do Portuguêsaté faz parte do grupo de preposições que dá conta do movimento de aproximação ao ponto de chegada, neste caso "chegada ao limite"; de faz parte de outro grupo de preposições, cuja noção é de afastamento, neste caso "a origem" [do afastamento].

Continua: «Acúmulo de preposições – Não raro duas preposições se juntam para dar maior efeito expressivo às ideias, guardando cada uma seu sentido primitivo: Andou por sobre o mar. Estes acúmulos de preposições não constituem uma locução prepositiva porque valem por duas preposições distintas. Combinam-se com mais frequência as preposições: de, para e por com entre, sob e sobre. “De uma vez olhou por entre duas portadas mal fechadas para o interior de outra sala...” [CBr.1², 175]. “Os deputados oposicionistas conjuravam-no a não levantar mão de sobre os projetos depredadores” [CBr.1]. »

Há outras sequências de duas preposições que se encontram dicionarizadas:

até a (sempre seguida de artigo definido): «Foi até ao mercado»
para com: «O professor mostrou que foi justo para com o aluno»
por entre: «É solitário andar por entre a gente» (Luiz de Camões)
de entre: « De entre todos na turma, ela era a aluna mais interessada» 

Voltando à frase em apreço, é aconselhável dizer, em alternativa: