Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carlos Rocha
Carlos Rocha
1M

Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

Pergunta:

Gostaria de saber qual a forma correta para a localidade onde está a barragem. Devemos dizer "Castelo de Bode" ou "Castelo do bode"?

Adicionalmente a barragem ali edificada é a "barragem de Castelo do Bode" ou "barragem do Castelo de Bode"?

Muito obrigado

Resposta:

Não é claro o uso oficial do topónimo em questão.

Embora o topónimo em questão se tenha fixado com a forma com deCastelo de Bode (cf. dicionário de toponímia associado ao Vocabulário Ortográfico Comum do Instituto Internacional da Língua Portuguesa e Repertório Toponímico de Portugal, que o Ministério do Exército e Portugal publicou em 1967) –, a verdade é que este topónimo figura sob a forma Castelo do Bode, com do, em páginas eletrónicas das câmaras municipais de Tomar e Abrantes (que abrangem o território onde se encontra a barragem). Também é Castelo do Bode que se regista no Dicionário de Onomástico Etimológico de José Pedro Machado. Por outras palavras, quem diga ou escreva «de Bode» segue uma forma que se encontra atestada e que denota certa formalidade, mas «do Bode» parece ter tom mais tradicional e também não se pode dizer que esteja errada.

Quanto ao uso de artigo com este topónimo, também há oscilações, mas atendendo a usos como «em Castelo de Paiva», «para Castelo de Vide» ou «Figueira de Castelo Rodrigo», sempre sem artigo definido antes do nome que denomina o tipo de edificação, uso de «Castelo de/do Bode» sem artigo definido – «estive em Castelo de/do Bode» – ganha claro favor sobre o emprego com artigo definido («estive no Castelo do Bode»).

Pergunta:

A minha dúvida é sobre estas duas expressões (i) "faltar respeito" (ii) "faltar com respeito".

Oiço mais, aqui em Bissau, o uso da primeira frase, mas nos filmes, escrituras ou telenovelas portuguesa, oiço só a segunda.

Então, pergunto qual dessas é correta.

Resposta:

A expressão correta – na medida em que tem mais tradição e está dicionarizada – é «faltar ao respeito a alguém», que significa «ser descortês, indelicado, incoveniente com pessoa de idade, posição ou autoridade superior»1. No Brasil, aceita-se também «faltar com o respeito», que é, observe-se, a forma mais frequente da expressão entre falantes deste país.

Fora deste usos mais correntes entre falantes portugueses, há, como revela a pergunta, outros mais circunscritos e talvez menos estáveis, que, por enquanto, só se justificam na comunicação mais informal.

 

1 Forma e significados registados por António Nogueira Santos em Novos Dicionários de Expressões Idiomáticas I - Português (Lisboa, Edições João Sá da Costa, 2006).

2 Cf. Maria Helena de Moura Neves, Guia de Usos do Português, São Paulo, Editora UNESP, 2003, p. 340; ver também Sérgio Rodrigues, "O certo é 'faltar ao respeito' ou 'faltar com o respeito'?", Veja,  12/02/2017.

<i>Moio</i> e <i>xarém</i> a concurso
Variação e história da língua em modo televisivo

Para lá das questões de norma linguística, nem sempre tratada com o cuidado devido, os programas de televisão podem também deixar escapar muitas formas que, afinal, são também parte da história da língua. Um texto que assinala duas formas de uso popular – "moio", em vez da forma correta moo (de moer), e xerém/xarém – um tanto disfarçadas no meio da excitação de um concurso televisivo com grande audiência. 

Pergunta:

Estou com uma dúvida que me tem inquietado. Na ficha de trabalho de um manual, a propósito da obra Auto da Barca do Inferno [de Gil Vicente], surgiu a palavra solar («fidalgo de solar») identificada como extensão semântica (solar – relativo ao sol /solar – terreno onde se eleva a casa de uma família nobre ou pessoa nobre). Será possível aceitar extensão semântica e também derivada por sufixação?

Resposta:

Não se trata de um caso de extensão semântica, mas, sim, de derivação sufixal. Com efeito, solar, que é vocábulo homónimo de solar («relativo ao sol»), deriva de solo (a base de derivação é o radical sol-) e aplica-se a uma casa fidalga ou ao que é relativo a famílias fidalgas.

Assim se explica que solarengo signifique tradicionalmente «aquilo que é relativo a solar, casa fidalga». O uso de solarengo em lugar de soalheiro – uso muito discutível, se não mesmo incorreto – vem da confusão de solar («casa fidalga») com solar («relativo ao sol»).

Pergunta:

Têm-me surgido cada vez mais dúvidas no âmbito dos processos de formação de palavras por derivação.

Por exemplo: infeliz é uma palavra derivada por prefixação; felizmente é uma palavra derivada por sufixação. E infelizmente? É derivada por sufixação (infeliz+-mente) ou por prefixação e sufixação (in-+feliz+-mente)? O Dicionário Terminológico apresenta a derivação por prefixação ou por sufixação e a parassíntese surge como o único caso em que são adicionados prefixos e sufixos...

Obrigada.

Resposta:

A palavra infelizmente deve ser analisada como derivada em duas fases sucessivas, como se descreve a seguir:

«No caso [de infelizmente], não se trata de um só processo de formação de palavras. O prefixo in- agrega-se a felizmente. O sufixo -ment(e) agrega-se a infeliz. Ou, de outra forma possível, o sufixo -ment(e) agrega-se a feliz, o prefixo in- agrega-se a felizmente. Ou seja, existem as palavras constituídas somente pelo afixo da esquerda e pelo afixo da direita. Para que exista o lexema infelizmente, não é necessário que à base feliz se juntem obrigatoriamente e em simultâneo in e -ment(e). Em infelizmente não há circunfixação, mas sucessivas afixações (feliz > infeliz > infelizmente; feliz > felizmente > infelizmente).» (Graça Rio-Torto et al. Gramática Derivacional do Português, 2016, p. 107).

Não se trata, portanto, de um derivado parassintético. Também não se pode afirmar que infelizmente é palavra derivada simultaneamente por prefixação e derivação; se o fosse, teria de ser parassintética como entontecer, e não o é. Há gramáticas que falam em palavras derivadas por prefixação e sufixação, mas estes geralmente são sempre casos de palavras cuja derivação se faz não simultaneamente, mas, sim, em fases sucessivas.