Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carlos Rocha
Carlos Rocha
1M

Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

Pergunta:

A propósito do acrónimo Daesh, relacionado com a organização jiadista Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) ou Estado Islâmico do Iraque e da Síria (EIIS), queria saber:

1) Sendo que Daesh chegou até nós por influência da grafia inglesa Da'ish, a sua pronúncia em português não devia ser /daixe/, tal como sucede com Al-Qaeda – /alkaida/?

2) E quanto à grafia aportuguesada: "Dáesh" (forma sugerida para o espanhol pela Fundéu), ou "Daexe", como se regista na Wikipédia?

Os meus agradecimentos.

Resposta:

O tema em questão é um tanto complexo, porque envolve uma forma, Daesh, que, por um lado, é uma palavra recebida por via inglesa, e, por outro, constitui uma das transliterações possíveis de uma abreviação do árabe. Simplificando, diga-se que a  grafia Daexe (lida "dá-eche") é uma adaptação, adequada e já em uso, da forma anglicizada Daesh, pois é coerente com os critérios etimológicos da ortografia do português, tal como esta tem sido concebida desde a Reforma Ortográfica de 1911. Como se explicará adiante, é possível escrever "Daixe" (sem acento), mas trata-se de grafia que não tem tido circulação nem aparece recomendada em âmbitos oficiais ou especializados.

Respondendo diretamente às perguntas:

1) A forma Daesh é que é muito corrente no mundo inglesa e constitui a anglicização do acrónimo árabe داعش, o qual, de acordo com Alfabeto Fonético Internacional (AFI), se transcreve foneticamente como [ˈdaːʕɪʃ] (cf. داعش no Wiktionary)1. A forma árabe também ocorre romanizada como dāʿiš, que se angliciza como variante de DaeshDa'ish, de algum modo mais fiel à fonologia do acrónimo original. Esta variante inglesa pode ser aportuguesada como "Daixe" (sem acento), mas, para elaboração da presente resposta, não foi possível encontrar atestações desta possibilidade fonética e gráfica. Quanto à afinidade deste caso com o de Al-Qaeda, anglicização do árabe القاعدة, pode afirmar-se que há identidade ...

Pergunta:

Nos esclarecimentos de Maria Regina Rocha e de D'Silvas Filho, o ponto de abreviação dispensa o ponto final, se for o fim da frase?

Por exemplo: «...pelo que se aplica o art.º 19.º.»

Este último ponto final deve ser colocado no fim da frase ou é dispensável?

Muito grato.

Resposta:

Com abreviaturas, incluindo as dos adjetivos numerais (os tradicionalmente chamados numerais ordinais) terminados em expoente, pode ocorrer ponto. Trata-se de um caso excecional de colocação de ponto frásico depois de ponto abreviativo, pela razão de existir uma letra em expoente no meio.

Lê-se nas recomendações de A Folha – Boletim da Língua Portuguesa nas Instituições Europeias, n.º 48 (verão de 2015):

«As abreviaturas terminadas por ponto podem ser seguidas por qualquer sinal de pontuação, exceto de ponto final.

"……, etc." ("……, etc..")

"……, etc.; ……"

"……, etc.?"

"p. ex.: ……"»

Visto as abreviaturas com letras acima da linha, incluindo os adjetivos numerais, não terminarem por ponto, mas sim com uma letra expoente, infere-se que se coloca um ponto depois de «19.º», como acontece no exemplo em causa: «...pelo que se aplica o art.º 19.º.»

A escrita do ponto é também confirmada em Portugal pela prática de pontuação de várias publicações, entre elas, as de diplomas legais – por exemplo, na versão mais recente do Código do Registo Predial, contido no Decreto-Lei 224/84:

(1) 3 - A responsabilidade pelo pagamento da quantia prevista no n.º 1 recai sob...

Pergunta:

Na expressão «Oh, não, que pouca sorte a minha!» a que classe e subclasse pertence a palavra que?

Obrigada.

Resposta:

Em Portugal, no quadro da terminologia empregada no ensino não universitário, as palavras que acompanham nomes («que sorte!») ou adjetivos («que lindo!») nas frases exclamativas não têm classificação precisa.

O Dicionário Terminológico é omisso sobre o assunto; e em gramáticas escolares, ou se fala em «expressões quantificadas»1, ou não se classifica este que, apenas o mencionando como exemplo de «palavras que traduzem a exclamação»2. Parece, portanto, que no âmbito dos ensinos básico e secundário, não é relevante definir a classe da palavra em apreço.

Num plano extraescolar, são vários os autores de gramáticas tradicionais de referência que consideram que um determinante interrogativo em casos como «que pouca sorte», aceitando que os determinantes interrogativos se contam entre os especificadores dos nomes em frases exclamativas3.

 

1 Cf. Domínios –Gramática da Língua Portuguesa, Plátano Editora, 2011, p.190.

2 É o caso da Nova Gramática Didática de Português, Santilhana/Constância, 2011, p. 157. Noutra gramática consultada, a Gramática Prática de Português (Lisboa Editora, 2011, pp. 98 e 191), não se faz qualquer comentário à classe ou à possibilidade de classificação do que em contexto de frase exclamativa.

3 Cf. Celso Cunha e Lindley Cintra,

Pergunta:

Sou argentina, estudando português, e tenho uma dúvida. Na língua existem algumas palavras como pinheiro, que é contável, e pinho (a sua madeira), que é não contável.

Existe algum outro par que seja do mesmo caso?

Resposta:

O contraste apontado, que não é exclusivo do português, revela-se geralmente pelo uso do mesmo lexema com dois significados diferentes. Por exemplo, carvalho pode ser a árvore e a madeira da árvore: «uma mata de carvalhos» (contável e, portanto, pluralizável) vs. «uma mesa de carvalho» (não contável e pluralizável em condições especiais).

No entanto, também a respeito de termos que denotam árvores e tipos de madeira, pode-se pensar em lexemas que partilham a mesma raiz, mas que se diferenciam quanto às suas terminações, definindo-se pares contrastivos formados por um item mais extenso, designativo da árvore, em que se distingue um sufixo (-eiro, -eira) e outro mais curto, que denota  a madeira:

(1) azinheira (árvore) – azinho («madeira de azinho», «lenha de azinho»)

(2) castanheiro (árvore) – castanho («uma mesa de castanho», ou seja, uma mesa feita de madeira de castanheiro, embora também se diga «madeira de castanho»)

(3) sobreiro (árvore) – sobro (madeira, como em «lenha de sobro»)

Não é este um contraste sistemático, porque o segundo termo de cada par pode ocorrer como denominação da própria árvore (cf. Vasco Botelho de Amaral, Grande Dicionário de de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português, 2.º volume, 1958, p. 670/671).

Mesmo assim, trata-se de um contraste que pode observar-se em distintos campos lexicais e já entre palavras radicalmente diferentes. Deteta-se assim entre um nome contável que designa uma realidade natural ou produzida por mãos humanas e o nome não contável que se aplica à matéria constitutiva dessa realidade; por exempl...

Pergunta:

Gostaria de saber qual a regra de acentuação em português para vocábulos que terminem em ditongo, seguido de i ou u.

Por exemplo, o Vocabulário Ortográfico Comum regista Maláui e Piauí. No entanto, um destes acentos parece-me irrelevante. Se acentuarmos Maláui, evitamos que a sílaba tónica seja i, o que parece indicar que o acento em Piauí é irrelevante.

Contudo, se acentuarmos Piauí, evitamos que a sílaba tónica seja au, o que parece indicar que o acento em Maláui é irrelevante.

Poderiam esclarecer esta dúvida?

Obrigado.

Resposta:

A acentuação de Maláui 1 parece decorrer da norma segundo a qual se prevê que casos como os de Piauí tenham acento gráfico sobre o i tónico final. Lê-se no Acordo Ortográfio da Língua Portuguesa de 1990, Base X, 5:

«Levam, porém, acento agudo as vogais tónicas/tônicas grafadas i e u quando, precedidas de ditongo, pertencem a palavras oxítonas e estão em posição final ou seguidas de s: Piauí, teiú, teiús, tuiuiú, tuiuiús. Obs.: Se, neste caso, a consoante final for diferente de s, tais vogais dispensam o acento agudo: cauim.»

Este preceito vem do anterior acordo de 1945, da parte final da Base XV:

«Dispensa-se o acento agudo nas vogais tónicas i e u de palavras paroxítonas, quando elas são precedidas de ditongo; nos ditongos tónicos iu e ui, quando precedidos de vogal; e na vogal tónica u, quando, numa palavra paroxítona, está precedida de i e seguida de s e outra consoante. Exemplos dos três casos: baiuca, bocaiuva, cauila, tauismo; atraiu, influiu, pauis; semiusto. Quando as vogais tónicas i e u estão precedidas de ditongo, mas pertencem a palavras oxítonas e são finais ou seguidas de s, levam acento agudo: Piauí, teiú