Pergunta:
Já ouvi vários professores de Português para estrangeiros explicarem que o R carregado é gutural e comparam-no com o castelhano dizendo que este não o é. Inclusive tenho visto videos no YouTube a exemplificarem como se deve pronunciar o tal erre gutural.
Também uma minha professora de inglês que dava aulas de português para estrangeiros me explicou que muitos dos seus alunos não conseguiam fazer o tal erre (gutural). Ou seja, ela ensinava esse erre como o R português de referência.
Para mim esse erre é um regionalismo que tem crescido em Lisboa e nos meios de comunicação social. Para mim o R é alveolar. Estou errada?
Obrigada
Resposta:
O erre em causa é historicamente uma consoante vibrante múltipla apical (também se diz alveolar), mas hoje é cada vez mais frequente pronunciá-lo como erre "gutural", isto é, como vibrante múltipla uvular ou velar.
Trata-se de duas formas de pronunciar o chamado "r forte", que estão corretas. O "r forte" – o que ocorre em rato e carro, portanto como consoante que começa sílaba (ataque silábico) – é historicamente uma vibrante múltipla apical (isto é, o ápice da língua vibra contra os alvéolos dentais). Isto mesmo é confirmado por Paul Teyssier, na sua História da Língua Portuguesa (Edições Sá da Costa, 1982; mantém-se a ortografia do original):
«O português sempre possuiu, como o espanhol, uma oposição fonológica entre um /r/ brando (uma vibração) e um /r̄/ forte (várias vibrações em posição intervocálica; ex.: caro e carro. Nas outras posições existe na língua apenas um fonema, relaizado como [t] (ex.: três, parte) ou como [r] (ex.: ramo, melro, genro, Israel). Até uma data recente o ponto de articulação era, nos dois casos, apical: aponta da língua batia uma vez para [r] e várias para [r̄]. É a pronúncia actual do espanhol. No decorrer do século XIX, porém, surge uma articulação uvular do [r̄] forte, bastante semelhante à do francês, embora mais apoiada. Alguns falantes chegam a realizar esta consoante como constritiva velar surda, muito próxima do jota espanho. O [r] simples, ou brando, mantém a sua articulação apical. Em 1883, Gonçaves Viana assinala em Lisboa a nova articulação do [r̄]; considera-a, no entanto, variante individual. Em 1903, o mesmo foneticista observa que ela "se espalha progressivamente pelas cidades", mas ...