Carla Marques - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carla Marques
Carla Marques
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Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pela autora

Pergunta:

O que significa predisposição?

Resposta:

Predisposição é um nome comum do género feminino, que pode ser usado com diferentes significados.

Assim, pode surgir num enunciado com o valor de «aptidão, tendência ou vocação natural para qualquer coisa» (Dicionário da Língua Portuguesa), o que se verifica em (1):

(1) «Ele tem predisposição para a música.»

Também pode ser usado num contexto médico, em contexto de maior especialização do sentido com o valor de «aptidão natural do organismo para contrair determinadas doenças ou mal-estar» (Idem), o que se verifica em (2):

(2) «Ele tem predisposição para as enxaquecas.»

Disponha sempre!

Pergunta:

Há séculos, era crime o homossexualismo em Portugal, de modo que os homossexuais masculinos portugueses eram condenados ao degredo perpétuo no Brasil, então uma colônia portuguesa.

Nos documentos relativos a esses homens, era dito que foram condenados «por solicitar».

Tenho curiosidade de saber o que significaria o verbo solicitar nessa acepção, se seria solicitar sexo de outros homens, ou se seria um eufemismo.

Parece que os dicionários da língua portuguesa atuais, mesmo os melhores e maiores, não consignam essa acepção, digamos sexual, do verbo solicitar, razão pela qual recorro ao Ciberdúvidas pedindo-lhe um esclarecimento sobre este tema, citando, se for possível, o verbo solicitar nessa acepção com a sua respectiva definição em algum dicionário.

Muito obrigado.

Resposta:

Com efeito, o verbo solicitar pode ser usado com vários significados, entre os quais se encontra o que explica o uso referido pelo consulente. Nem todos os dicionários o apresentam de forma totalmente explícita, apresentando formulações mais genéricas, onde, não obstante, este significado pode ser incluído.  

Alguns dicionários, optam, no âmbito em causa, por uma formulação de cariz mais genérico, como é o caso do Dicionário Houaiss, que apresenta do seguinte modo o valor em questão: «buscar (o amor, a amizade, a atenção etc. de alguém); procurar ‹o filho solicita muito a mãe›». Nesta ação de buscar o amor, podemos incluir, como é evidente, a solicitação de teor sexual.

Já o Dicionário de Língua Portuguesa apresenta este valor de verbo de forma mais clara: «desejar alguém, com o fim de estabelecer relações amorosas ou sexuais».

O Dicionário Priberam, sem referir o teor sexual, apresenta uma descrição que aponta para a intenção do verbo: «Tentar obter algo. = BUSCAR, PROCURAR, REQUERER, REQUESTAR; Levar alguém a determinada ação ou estado. = INCITAR, IMPELIR, PROMOVER, INDUZIR"».

Assim, o significado do verbo nos contextos referidos pelo consulente está previsto em diferentes dicionários ou por meio de uma formulação genérica relativa ao ato de solicitar, que pode ter lugar em variadas situações, ou, nalguns casos, prevendo um uso específico do verbo, em contextos de solicitação sexual.

Disponha sempre!

Pergunta:

Minha dúvida é sobre a análise desta frase:

«Aprendi meu ofício trabalhando.»

– «Aprendi meu ofício» = minha oração principal.

– «trabalhando» – confesso que fiquei em dúvida na hora de classificá-la.

No meu entendimento há duas possíveis de classificações:

– «trabalhando» = oração subordinada adverbial proporcional / modal reduzida de gerúndio.

Mas, busco uma opinião profissional de vocês.

Como posso classificá-la? Como proporcional ou como modal?

Obrigado!

Resposta:

A oração em questão é uma oração subordinada adverbial reduzida de gerúndio.

A oração subordinada adverbial reduzida distingue-se da subordinada adverbial desenvolvida por não ser introduzida por uma conjunção. Não obstante, em certas circunstâncias, estas orações podem expressar os valores das orações desenvolvidas; causal, temporal, entre outros. De acordo com Cunha e Cintra, as orações gerundivas podem ser adjetivas ou adverbiais1.

No caso apresentado, aqui transcrito em (1), estamos perante uma oração subordinada adverbial reduzida de gerúndio:

(1) «Aprendi meu ofício trabalhando.»

Por meio do recurso à oração de gerúndio, o locutor poderá ter a intenção de expressar um valor temporal ou então de expressar um valor modal. O valor temporal expressa uma ideia de simultaneidade entre as situações descritas nas duas orações. Já o valor modal descreve como se realizou a situação descrita na oração subordinante.

Disponha sempre!

 

1. Cunha e Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo. Lexicon, p. 628-630

O plural de <i>não</i>
Flexão e classe de palavras

Neste apontamento da professora Carla Marques distingue-se os contextos em que é possível a palavra não admitir flexão em número.

(Apontamento divulgado no programa Páginas de Português, da Antena 2, em 11/02/2024)

Pergunta:

Na frase:

«Eu nunca sei como, quando e onde ele vai atacar.»

Há verbos implícitos nesta frase? Quais?

E na frase:

«O cão morrerá, se não de fome, de sede.»

Há verbos implícitos nesta frase? Quais? Como saber se há verbos implícitos numa frase?

Obrigado.

Resposta:

Com efeito, poderemos considerar a existência de elipse nas frases apresentadas pelo consulente. 

A frase «Eu nunca sei como, quando e onde ele vai atacar» terá a seguinte realização plena :

(1) «Eu nunca sei como ele vai atacar, quando ele vai atacar e onde ele vai atacar.»

A frase é composta por três orações coordenadas, apresentadas elipticamente. A elipse permite omitir a oração «ele vai atacar».

Há também elipse em «O cão morrerá, se não de fome, de sede», uma vez que a frase corresponde à seguinte frase plena:

(2) «Se não morrer de fome, o cão morrerá de sede.»

Neste caso, deu-se a elipse da forma verbal morrer, que é recuperada pelo contexto.

Disponha sempre! 

 

N. E. (20/02/2024) – Sobre a resposta acima apresentada, o gramático Fernando Pestana enviou as seguintes observações:

«Se me permitem discordar da análise feita sobre a primeira oração, não creio haver elipse.

Se há elipse em "Eu nunca sei como, quando e onde ele vai atacar", o que nos impediria de ver elipse em "Convidei o João e o Pedro"? Nada.

No entanto, tanto nesta como naquela, a conjunção e liga termos coordenados, de mesma classificação morfossintática, e não orações: «o João e o Pedro» (núcleos nominais, objetos diretos); «como, quando e onde» (advérbios interrogativos; adjuntos adverbiais).

Se há elipse em «Eu nunca sei como, quando e onde ele vai atacar», também haveria elipse em «Como, quando e onde ele vai atacar?», o que não me parece adequado, ...