Carla Marques - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carla Marques
Carla Marques
116K

Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pela autora

Pergunta:

Na frase «Ela cortou a meta em primeiro lugar, para alegria de todos», «em primeiro lugar» é um modificador do grupo verbal?

Tendo essa função sintática, como se explica, uma vez que não me parece que possa ser um elemento móvel, nesta frase?

Muito obrigada!

Resposta:

Com efeito, o constituinte «em primeiro lugar» desempenha a função de modificador do grupo verbal.

Esta função sintática caracteriza-se pelo facto de não ser um argumento do verbo, ou seja, de o verbo não necessitar dela para assegurar a sua gramaticalidade.

A mobilidade poderá não ser um elemento caracterizador desta função. Com efeito, há situações em que o modificador do grupo verbal não poderá alterar o espaço em que surge na frase, como se observa pelos exemplos abaixo (sublinha-se o modificador):

(1) «Não chegou a casa.»

(2) «Nem sempre vou à praia.»

(3) «Ele come bem

Por esta razão, a melhor forma de identificar a função sintática de modificador do grupo verbal será a de usar o teste da pergunta-resposta ou o teste da clivagem (que são apresentados nesta resposta)

Disponha sempre!

Pergunta:

É correto dizer «nascido e crescido em Lisboa»?

Muito obrigada!

Resposta:

A expressão é, com efeito, usada em diversos contextos onde se esperaria que surgisse a expressão «nascido e criado» ou «nado e criado». 

A construção «nascido e crescido» é equivalente a «nascido e criado», que parece ter maior frequência de uso. Normalmente, esta construção é usada seguida de um grupo preposicional com informação de lugar (localidade, país,…).

Numa pesquisa efetuada no Corpus do Português, de Mark Davies, verificamos que a construção «nascido e criado» tem registos no corpus histórico, o que não acontece com a expressão em análise. Não obstante, no corpus da atualidade encontramos registos de uso das duas expressões. Estes elementos parecem apontar que a expressão «nascido e criado» parece ser mais antiga, tendo maior tradição de uso do que a expressão apresentada pela consulente. Esta última construção, embora de gramaticalidade mais duvidosa, poderá estar a vingar pela sonoridade que a rima entre nascido e crescido convoca. 

Disponha sempre!

Convocar a metáfora para ganhar eleições
O discurso de Trump em Nova Iorque

O discurso do candidato e ex-presidente Donald Trump no comício em Nova Iorque, em 27 de outubro de 2024, construiu-se em torno de uma metáfora de guerra, cujas implicações são analisadas pela professora Carla Marques neste apontamento. 

Pergunta:

Qual é a frase correta, e porquê?

«A Fama da mitologia tinha tantos olhos quanto penas.»

«A Fama da mitologia tinha tantos olhos quantas penas.»

«A Fama da mitologia tinha tantos olhos como penas.»

Muito obrigado.

Resposta:

Ambas as construções são aceitáveis, como se transcreve em (1) e (2):

(1) «A Fama da mitologia tinha tantos olhos quanto penas.»

(2) «A Fama da mitologia tinha tantos olhos quantas penas.»

Numa estrutura comparativa com os operadores tanto… quanto, o primeiro termo de comparação é formado pelo operador tanto comparativo de igualdade associado ao nome, com o qual concorda em género e número (frase (2)). O segundo termo de comparação é constituído pelo operador quanto seguido de oração. Este operador pode ter uma forma invariável, que pode surgir em estruturas comparativas cujo domínio de quantificação é um nome (3), um verbo (4), um advérbio (5) ou um adjetivo (6):

(3) «Ele comeu tantos bolos quanto a Rita comeu.»

(4) «Ele comeu tanto quanto a Rita comeu.»

(5) «Ele comeu tão lentamente quanto a Rita correu.»

(6) «Ele é tão guloso quanto a Rita é.»

É possível também adotar formas variáveis do operador quanto, quando o domínio de quantificação é um nome, com o qual concorda em género e número:

(7) «Ele comeu tantos bolos quantos a Rita comeu.»

(8) «Ele comeu tantas fatias de bolo quantas a Rita comeu.»1

Isto indica que poderíamos admitir a concordância de quanto com penas («quantas penas»). A frase (2) inclui a elipse do verbo, pelo que a sua forma completa será similar à que se apresenta em (2a):

(2a) «A Fama da mitologia tinha tantos olhos quantas eram as penas.»

Disponha sempre!

Pergunta:

Como se escreve: «políticas de prevenção ao suicídio» ou «políticas de prevenção do suicídio»?

Resposta:

Deve optar-se pela expressão «políticas de prevenção do suicídio».

O nome prevenção é formado a partir do verbo prevenir. Quando se transforma uma construção com predicado verbal, como em (1), num sintagma nominal que inclua um nome deverbal (formado a partir de um verbo), este nome herda os complementos do verbo, como se observa em (2). Estes complementos têm a particularidade de, normalmente, estabelecerem a ligação com o nome, núcleo do sintagma nominal, por meio da preposição de:

(1) «Ele preveniu o suicídio de alguém»

(2) «A prevenção do suicídio»

Pelas razões apresentadas, a construção a usar é a que inclui a preposição de.

Disponha sempre!