Tratado de Alcunhas Alentejanas - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Tratado de Alcunhas Alentejanas
Francisco Martins Ramos e Carlos Alberto da Silva
Edições Colibi, 2013 377   

Em mais de 600 páginas, Francisco Martins Ramos e Carlos Alberto da Silva compilaram nesta obra* cerca de 13 mil alcunhas mais usuais no Alentejo. Organizado em forma de dicionário Tratado das Alcunhas Alentejanas*, é um registo aturado de muitos dos nomes por que são popularmente conhecidos muitos alentejanos, apesar de não constarem no respetivo cartão de identificação. Perto de 13 mil, neste apanhado.

Como se sabe, muitas são as alcunhas atribuídas às pessoas, quase sempre desde crianças, e por ela que identificadas pela vida fora, por familiares, amigos e colegas. Sendo uma tradição antiga em todo o território português, continente e ilhas, é na região alentejana que tomam mais força e peso. Como os autores afirmam «a alcunha marca, no Alentejo, os processos de comunicação e sociabilidade do mundo rural».

Não há uma só explicação para se atribuir determinado nome à pessoa, como se refere na introdução da obra: ou tem que ver com determinados traços físicos, psicológicos ou comportamentais, a filiação, mas também pode resultar da  profissão exercida ou herdada dos antepassados.

Vejamos alguns exemplos, muitos deles bem engraçados, dados com os respetivos significados e a área geográfica onde mais se registam as alcunhas:

«Avarias:  o alcunhado era conhecido pelas avarias da sua moto e das que fazia nas dos outros (Portalegre)».

«Caleiro:  a visada herdou a alcunha da mãe que fazia cal (Évora); homem que foi caiador (Almodôvar); alcunha aplicada a um homem muito pobre (Moura); o receptor vende cal (Moura, Viana do Alentejo, Sousel, Monforte, Mora e Redondo); designação colectiva atribuída aos habitantes da sede de concelho pelo facto de alguns deles se dedicarem à venda de cal nas aldeias (Moura)».

«Ferra o bico: o visado é comerciante e pratica preços altos (Monforte); o nomeado tem o apelido de Ferro e, por isso, colocaram-lhe esta alcunha (Estremoz)».

«Goela seca: alcunha aplicada a um homem muito bêbado (Fronteira)».

«Licatinho: o receptor, quando era criança, ao tentar dizer “alicate”, dizia “licatinho” (Ourique)».

«Mil e um: alcunha outorgada a um indivíduo que é muito mentiroso (Serpa); o receptor tinha este número, quando cumpriu o serviço militar (Castro Verde); o alcunhado, quando era criança, não sabia contar os números, só sabia dizer “mil e um” (Aljustrel)». 

«Pardalinho de estrumeira: alcunha atribuída a um sujeito de baixa estatura (Ferreira do Alentejo)».

«Pevide: epíteto que identifica um sujeito pequeno e muito magro (Moura e Évora); designação atribuída a um individuo que gosta muito de comer pevides (Aljustrel e Santiago do Cacém)».

«Tá quieto: o visado, em criança, era muito irrequieto (Aljustrel)». 

* livro escrito conforme a norma anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.  

Sara Mourato