Para Acabar de Vez com o Mau Português - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Para Acabar de Vez com o Mau Português
Deslizes e tropeços gramaticais que cometemos no dia a dia
Sara de Almada Leite
Manuscrito Editora, 2018 1K   

Sara de Almeida Leite regressa aos guias prescritivos do uso linguístico com esta nova obra, depois de uma série de livros assinados em coautoria (com Sandra Duarte Tavares) ou individualmente – caso de Como Escrever (Tudo) em Português Correto (2017). Com intuitos muito práticos, dirigindo-se a um público não especializado, a autora reúne uma lista extensa de incorreções – 150 erros – que ocorrem tanto na oralidade como na escrita.

O livro organiza-se em 10 capítulos que vão da ortoépia (boa pronúncia) à flexão nominal e verbal, da construção de frases (sintaxe) às impropriedades vocabulares, envolvendo semântica e léxico. No começo de cada capítulo, um texto identifica e contextualiza em traços muito gerais o tipo de problemas que aí se pretende abordar. Quanto à estrutura dos subcapítulos, cada qual dedicado a um erro, apresenta-se primeiro um breve diálogo, no estilo didático de muitas obras do passado, procurando dar vivacidade à doutrina normativa veiculada, a que se juntam pontualmente observações ou reações críticas à construção da norma na atualidade. Segue-se um texto expositivo para identificar a forma correta e explicitar mais claramente a regra ou o critério que excluem a frase, a palavra, a pronúncia ou a grafia ilegítimas.

Certas páginas apelam ao desenvolvimento da sensibilidade para matizes do idioma, quando alertam para casos de hipercorreção, ou seja, para a generalização indevida de algumas regras, e revelam que  «mais grande» ou «mais bom» são, afinal, formas corretas (cf. pp. 205 e 207). Contudo, o livro evoca por vezes posições mais conservadoras em matéria de norma, por exemplo, ao dar a impressão de incluir as pronúncias regionais – a maneira lisboeta de dizer coelho, ou o betacismo característico dos dialetos portugueses setentrionais – entre os chamados «vícios de linguagem» (cf. p. 34). Na mesma linha, é questionável, até do ponto de vista do padrão linguístico1, considerar totalmente previsível a distribuição dos duplos particípios passados, aceitando que as formas participais regulares se usam sempre com  auxiliares ter (ter matado, ter aceitado) e as irregulares ou curtas se associam a ser (ser morto, ser aceite) (cf. pp. 86 e 95). Refira-se ainda outra posição contestável, a de condenar o uso da expressão «grande beijinho». De qualquer modo, trata-se de um guia muito útil, a confirmar a reconhecida competência desta autora no domínio da divulgação das normas e dos padrões que hoje configuram o português correto em Portugal.

Carlos Rocha

 

1 É bastante frequente a combinação do auxiliar ter com particípios passados irregulares, de tal maneira, que, em Portugal, encontra este uso abonações na língua literária das últimas décadas do século XXI – «ter aceite» é um caso: «Aliás, ele teria aceite, sob o peso daquela visita no seu ninho de pássaro velho, um tiro de revólver.» (Lídia Jorge, O Vale da Paixão, 1998); «Mas se correctamente nos aconselha a desolação do cárcere, nem por isso falha de convocar remorsos que nos afligem, e depositava eu no meu mano os que me sobrevinham, cismando em que não deveria ter aceite a capitania-mor, por ser ele mais velho e mais sábio do que eu [...].» (Mário Cláudio, Peregrinação de Barnabé das Índias, 1998). Sobre particípios passados duplos, leia-se Telmo Móia, "Algumas áreas problemáticas para a normalização linguística – disparidades entre o uso e os instrumentos de normalização", in Atas do XX Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa: APL, 2004, pp. 115-119).