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As Raízes da Língua

As Raízes da Língua
Autor(es) Marco Neves
Edição Guerra e Paz , 2026
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O mais recente livro de Marco Neves (linguista, tradutor e divulgador da língua portuguesa) chega aos leitores pela editora Guerra e Paz. Publicado em março de 2026, As Raízes da Língua propõe uma viagem acessível e envolvente pela história do português através de 50 palavras do quotidiano, revelando as origens diversas e inesperadas que se escondem na língua que usamos todos os dias.

Longe de se apresentar como um dicionário etimológico ou uma obra técnica, o livro organiza-se em pequenas crónicas que contam as aventuras das palavras, mostrando os caminhos, por vezes surpreendentes, que estas percorreram até chegarem à forma atual. A partir de termos simples e familiares, como mãeverãolivrocafé ou água, o autor conduz o leitor por episódios históricos, contactos culturais e transformações linguísticas que ajudam a compreender a riqueza do português.

Uma das ideias centrais da obra é a metáfora da árvore do léxico: embora o português tenha como base o latim da Península Ibérica, a sua evolução foi marcada por contributos de várias línguas, como o árabe, o grego, línguas germânicas e outras provenientes de diferentes espaços geográficos. Esta diversidade evidencia-se nas palavras do dia a dia, que funcionam como verdadeiros vestígios de encontros entre povos e culturas.

Mas as crónicas aqui reunidas vão mais longe do que é habitual, pelo menos na bibliografia portuguesa, quando o tema é a etimologia do léxico do português. O autor recua até ao protoindo-europeu, uma língua reconstruída, que há 6500 anos, com maior ou menor variação, seria veículo de comunicação para as comunidades que habitavam sobretudo as regiões a norte do Mar Negro (cf. nota na p. 10). Compreende-se, portanto, que a maioria das palavras do português, mesmo quando não evoluíram do latim, encontrem a sua raiz mais remota nesse sistema linguístico arcaico, apesar de, na língua, se terem fixado numerosos arabismos, que pertencem geralmente à família afro-asiática. Ainda assim, até no caso do legado árabe, há muitos casos de adaptações do persa (cf. "44. Verde, 45. Azul e 46. Vermelho", pp. 149-150) e do sânscrito (cf. "21. Açúcar", pp. 79-81), línguas que fazem parte da grande família das línguas indo-europeias.

O livro destaca ainda fenómenos curiosos, como o das que saem do português para outras línguas e regressam mais tarde com novas formas ou significados, como é disso exemplo fetiche. Muitas das crónicas nascem, aliás, de situações banais ou acontecimentos do quotidiano, mostrando como a reflexão sobre a língua pode partir de experiências simples e próximas.

Com um tom claro, próximo e frequentemente marcado pela curiosidade, As Raízes da Língua convida o leitor a olhar para o português de forma diferente, revelando que, ao falar, usamos palavras que guardam histórias antigas e inesperadas. Trata-se, assim, de uma obra que alia conhecimento e prazer de leitura, tornando a história da língua acessível a um público alargado.

1 Os estudos indo-europeus parecem nunca ter ocupado o lugar que deveriam na lexicografia histórica do português. Não obstante, nas décadas mais recentes, surgiram obras nesta área de estudos, a que não são estranhos intuitos de divulgação: Por trás das Palavras: Manual de Etimologia do Português (2004), de Mário Viaro; e Histórias de Palavras: do Indo-Europeu ao Português (2008), de Ernesto d'Andrade.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa