Pelourinho // Mau uso no espaço público
«Pavimentar a democracia»?
Impropriedade vocabular, topónimo louvável
«Snu Abecassis, que “ajudou a pavimentar a democracia”, é agora nome de rua em Lisboa»
Expresso, 06/07/2026
Em Lisboa, a Câmara Municipal quis homenagear Ebba Merette Seidenfaben (1940-1980) dando a uma rua o nome por que ela era mais conhecida em Portugal: Snu Abecasis. E na cerimónia de descerramento da nova placa toponímica, que teve lugar em 06/07/2026, o presidente do município sublinhou que esta cidadã dinamarquesa, fundadora das Edições Dom Quixote, «ajudou a pavimentar a nossa democracia».
O uso metafórico de pavimentar não oferece dificuldade de interpretação, pois rapidamente se percebe que a intenção é salientar o contributo de Snu Abecasis para a transição política no Portugal dos anos 60 e 70 do século passado. «Pavimentar a democracia» até pode parecer construção bem achada, a propósito talvez de algum ambicioso plano de obras públicas. Mas será esta metáfora reveladora do arrojo literário do edil?
Na verdade, em tempos em que a língua inglesa vai lançando raízes na vida lisboeta, é difícil não detetar em «pavimentar a democracia» o eco da tradução literal de «to pave the way for», conhecida expressão idiomática anglo-saxónica, que em português se converte em «preparar o caminho para» (cf. Infopédia) ou, de modo ainda mais chão, «abrir caminho».
Quem julgue que «abrir caminho» é expressivamente mais pobre que «pave the way» se calhar engana-se. O que Snu Abecasis fez foi mesmo desbravar e abrir caminho numa sociedade que já nem caminhos tinha para pavimentar.
