O nosso idioma // A arte do uso da linguagem
O que é o paralelismo sintático
Um princípio para a boa construção frásica
Paralelismo sintático* é um princípio de ordem estilística que colabora para a boa construção das frases, visando à simetria das partes que as compõem. Tal fato linguístico se manifesta sempre na coordenação entre segmentos linguísticos de mesma natureza sintática, como veremos mais abaixo. Portanto, verificar se uma frase teve ou não o paralelismo sintático respeitado pressupõe, sobretudo, o conhecimento do conceito de coordenação entre termos e orações.
– O que é coordenação?
Coordenação é a relação sintática na qual os elementos de mesma natureza sintática vêm numa sequência; tais elementos são sintaticamente independentes entre si, ou seja, não dependem do outro para figurar com autonomia na frase.
Exemplos de termos coordenados entre si:
– JOÃO, MARIA, JOSÉ são personagens bíblicos.
– Preciso DE SAÚDE, DE PAZ E DE DISPOSIÇÃO.
– ANTEONTEM E ONTEM fiquei em casa.
Exemplo de orações coordenadas entre si (lembre que toda oração é constituída de verbo):
– VIM, VI, VENCI.
– ACORDAR CEDO e CAMINHAR UMA HORA faz um bem danado.
– Não sei SE A VIDA É BOA ou SE É RUIM.
Perceba que os segmentos em caixa alta respeitam o princípio do paralelismo sintático.
Vale ressaltar, porém, o que diz Othon Moacyr Garcia na página 45 da sua magnífica obra Comunicação em Prosa Moderna:
«Entretanto, o paralelismo não constitui uma norma rígida; nem sempre é, pode ou deve ser levado à risca, pois a índole e as tradições da língua impõem ou justificam outros padrões. Trata-se, portanto, de uma diretriz…»
Diretriz, e não regra absoluta!
Conheça agora os seis casos prototípicos seguidos de exemplos que ilustram frases sem paralelismo e com paralelismo. Importante: a redação das frases com paralelismo não necessariamente conservam o sentido exato da frase sem paralelismo.
1. Um termo deve se coordenar a outro termo, e não a uma oração.
Sem paralelismo:
– Tivemos que estar presentes a uma reunião INCÔMODA (termo) e QUE NÃO APRESENTOU NENHUMA INFORMAÇÃO IMPORTANTE (oração).
Com paralelismo:
– Tivemos que estar presentes a uma reunião INCÔMODA e POUCO IMPORTANTE (ou NADA IMPORTANTE, ou NEM UM POUCO RELEVANTE, ou TOTALMENTE DESIMPORTANTE, etc.)
Sem paralelismo:
– Mande-me tudo que conseguir SOBRE AS MANOBRAS DE MINHA TIA (termo) e SE MEU TIO ENCONTROU OS DOCUMENTOS QUE PROCURAVA (oração).
Com paralelismo:
– Mande-me tudo que conseguir SOBRE AS MANOBRAS DE MINHA TIA e SOBRE A DESCOBERTA DOS DOCUMENTOS PELO MEU TIO.
Sem paralelismo:
- A ESPERA pela valorização dos lotes, ANSIAR a venda deles e a PREOCUPAÇÃO com a segurança tornaram tudo difícil.
Com paralelismo:
– A ESPERA pela valorização dos lotes, o ANSEIO pela venda deles e a PREOCUPAÇÃO com a segurança…
2. Uma oração desenvolvida deve se coordenar a outra oração desenvolvida, e não a um termo ou a uma oração reduzida.
Sem paralelismo:
– Fiquei decepcionado QUANDO SOUBE DA CORRUPÇÃO PRATICADA PELO GOVERNADOR (oração desenvolvida) e COM A NOTÍCIA DA SUA PRISÃO (termo).
Com paralelismo:
– Fiquei decepcionado QUANDO SOUBE DA CORRUPÇÃO PRATICADA PELO GOVERNADOR e QUANDO SE NOTICIOU A SUA PRISÃO.
Sem paralelismo:
– Na verdade, não deixamos de ir trabalhar PORQUE ESTÁVAMOS GRIPADOS (oração desenvolvida), mas POR ESTAR CHOVENDO MUITO (oração reduzida).
Com paralelismo:
– Na verdade, não deixamos de ir trabalhar PORQUE ESTÁVAMOS GRIPADOS, mas PORQUE ESTAVA CHOVENDO MUITO.
Sem paralelismo:
– Pelo aviso anterior, recomendaram QUE SE ELABORASSEM PROJETOS MAIS SÓLIDOS (oração desenvolvida) e ECONOMIZAR DINHEIRO TAMBÉM (oração reduzida).
Com paralelismo:
– Pelo aviso anterior, recomendaram QUE SE ELABORASSEM PROJETOS MAIS SÓLIDOS e QUE SE ECONOMIZASSE DINHEIRO TAMBÉM.
3. Uma oração reduzida deve se coordenar a outra oração reduzida, e não a um termo ou a uma oração desenvolvida.
Sem paralelismo:
– Ele gosta DE CONVERSAR BASTANTE (oração reduzida) e principalmente DE ANEDOTAS (termo).
Com paralelismo:
– Ele gosta DE CONVERSAR BASTANTE e DE CONTAR ANEDOTAS.
Sem paralelismo:
– É necessário CHEGARES A TEMPO (oração reduzida) e QUE TRAGAS AINDA A ENCOMENDA (oração desenvolvida).
Com paralelismo:
– É necessário CHEGARES A TEMPO e TRAZERES AINDA A ENCOMENDA.
Sem paralelismo:
– Faltam-lhe algumas coisas essenciais: EMOCIONAR-SE (oração reduzida), O OLHAR ATENTO (termo), VER O OUTRO (oração reduzida), FALAR VERDADES (oração reduzida), A INTERRUPÇÃO DA CELERIDADE (termo)…
Com paralelismo:
– Faltam-lhe algumas coisas essenciais: EMOCIONAR-SE, OLHAR ATENTAMENTE, VER O OUTRO, FALAR VERDADES, INTERROMPER A CELERIDADE…
4. As estruturas de correlação («tanto... quanto»; «não só... mas também»; «quer... quer»; «entre… e»; etc.) devem vir combinadas com seus pares, e não com outros elementos.
Sem paralelismo:
– TANTO levantamos as questões, MAS TAMBÉM as elucidamos.
Com paralelismo:
– TANTO… QUANTO/COMO…
Sem paralelismo:
– NÃO SOMENTE se deve ler mais, QUANTO se deve escrever abundantemente.
Com paralelismo:
– NÃO SOMENTE… MAS TAMBÉM...
Obs.: Há outras possibilidades de correlação aditiva adequada.
Sem paralelismo:
– QUER as coisas se resolvam OU ainda não cheguem a esse ponto, precisamos ter esperança.
Com paralelismo:
– QUER… QUER…
Sem paralelismo:
– ENTRE dois A cinco casais estavam festejando o nascimento dos filhos.
Com paralelismo:
– ENTRE… E…
5. Uma sequência de termos de mesma função sintática iniciados pela mesma preposição deve preservá-la, e não substituí-la por outra.
Sem paralelismo:
– A energia nuclear se aplica À produção da bomba atômica ou PARA outros fins militares.
Com paralelismo:
– … À produção… e A outros fins…
Sem paralelismo:
– Há pessoas que se acostumam COM o frio da montanha e AOS longos dias de inverno.
Com paralelismo:
– … COM o frio… e COM os longos dias…
Sem paralelismo:
– O professor se dedica À pesquisa histórica e NO desvendamento de antigos manuscritos.
Com paralelismo:
– … À pesquisa… e AO desvendamento…
6. A partir do segundo elemento duma construção de segmentos coordenados introduzidos por preposição ou conjunção, é facultativa a elipse desses conectivos, segundo o princípio do paralelismo sintático.
Sem paralelismo:
– Ninguém sabia QUE eles estavam envolvidos na trama, QUE escondiam grandes segredos e, principalmente, ( ) destoavam dos demais investigados.
Com paralelismo:
– Ninguém sabia QUE eles estavam envolvidos na trama, QUE escondiam grandes segredos e, principalmente, QUE destoavam dos demais investigados.
ou
– Ninguém sabia QUE eles estavam envolvidos na trama, escondiam grandes segredos e, principalmente, destoavam dos demais investigados.
Sem paralelismo:
– Apesar DE ter escolhido esta profissão, ( ) gostar do que faço, DE ganhar razoavelmente bem, venho recalculando a minha rota.
Com paralelismo:
– APESAR DE ter escolhido esta profissão, APESAR DE gostar do que faço, APESAR DE ganhar razoavelmente bem…
ou
– Apesar DE ter escolhido esta profissão, DE gostar do que faço, DE ganhar razoavelmente bem…
ou
– Apesar DE ter escolhido esta profissão, gostar do que faço, ganhar razoavelmente bem…
Sem paralelismo:
– Você ainda nutre alguma simpatia PELA política, ( ) governo, POR deputados, ( ) ministros etc.?
Com paralelismo:
– Você ainda nutre alguma simpatia PELA política, PELO governo, POR deputados, POR ministros etc.?
ou
– Você ainda nutre alguma simpatia PELA política, governo, deputados, ministros etc.
* Para este apontamento, eu me vali das lições dos seguintes autores: Napoleão M. de Almeida, Evanildo Bechara, Maria Helena de Moura Neves e, especialmente, Othon M. Garcia. Caso o leitor tenha interesse em realizar exercícios, sugerimos clicar nesta ligação.
