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Metáforas do discurso político*
Metáforas do discurso político*

«(…) O vocabulário tecnocrático abunda em expressões como “país doente”, “saúde da economia” e “revitalização das empresas”. (…)»

 

 

 

A sociedade está doente. Sofre de egoísmo, de populismo, de racismo e de outras pragas, antigas e modernas – as modernas são geralmente mutações das antigas. Alimentadas por discursos ardilosos que geram fluxos de maldade e veneno, elas tendem a espalhar-se ao encontrarem terreno adequado; por exemplo, uma crise económica que esteja a levar muita gente ao desespero. O contágio pode dar-se por via direta (boca a boca) ou impessoal (através dos media). Mentes já predispostas são infetadas e infetam outras mentes, gerando um efeito inicial de euforia que dá uma sensação de poder mas rapidamente produz sintomatologia patológica, com crises sucessivas que enfraquecem o corpo social e podem mesmo levar ao seu colapso. O melhor remédio é a prevenção. Neste caso como em tantos outros, prevenção significa cuidar do corpo e tomar algumas vacinas.

Sendo o vírus em causa o ódio à desigualdade, a principal vacina consiste em doses moderadas dele –suficientemente fortes para obrigar a alterações sociais (por exemplo, acentuando aspetos redistributivos do sistema fiscal), mas não tão fortes que destruam o que resta de saúde no corpo.

O parágrafo anterior é uma tentativa de usar metáforas para descrever um programa político. O programa é facilmente reconhecível. As metáforas são todas médicas e, embora não costumemos ouvi-las de forma tão concentrada, são também elas bastante comuns. De resto, não servem só para programas de esquerda. Até será mais habitual encontrá-las em certos discursos de direita ligados a uma tradição de argumentos orgânicos («espaço vital», «crescimento natural»).

Seja qual for a ideologia, metáforas como vírus, purga, contágio, contaminação e infeção surgem com frequência na vida pública.

Não só na política em sentido estrito. O vocabulário tecnocrático abunda em expressões como «país doente», «saúde da economia» e «revitalização das empresas». A revitalização pode ser na realidade uma ressurreição ou, pelo menos, a linguagem assim garante. E como a higiene é uma condição básica da saúde, a ressurreição/revitalização é com frequência precedida de «limpezas» – do passivo e não só.

 O termo visa afirmar a bondade da terapia usada, mas a história e a experiência emprestam-lhe conotações sinistras.

Fonte

Crónica transcrita da coluna do autor, “Altifante”, in Revista do semanário português “Expresso” de 10 de fevereiro de 2018, com o titulo original “Doenças”.

Sobre o autor

Jornalista português.