Fazer – um verbo a fazer as vezes de - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Início Português na 1.ª pessoa O nosso idioma Artigo
Fazer – um verbo a fazer as vezes de
Fazer – um verbo a fazer as vezes de
Sobre os verbos gastos

Tu andas a fazer das tuas! Andas a fazer a boca doce a quem?

 

As opções do falante ao construir uma simples frase oferecem a quem o ouve / lê com atenção o espanto que se pode ter perante um ato de criatividade. A eficácia da simplicidade, a exploração dos sentidos, as intenções escondidas. Na comunicação quotidiana (e não só), a pobreza na seleção vocabular é frequente a cada esquina de frase. Não obstante, a mesma pobreza constrangedora e sinalizadora de preguiça ou desconhecimento linguístico é um desafio interpretativo constante porque os significados explorados, esses, podem ser ricos na sua diversidade.

Acompanhemos, pois, o verbo fazer, que vai fazer as honras da casa, fazendo um pouco de sala, para explicar que tudo se deve a uma questão de competição entre palavras. Enquanto muitos verbos se limitam a fazer número, outros a fazer pestana e outros ainda a fazer castelos no ar, há um grupo restritivo que faz das tripas coração para fazer olhinhos aos falantes. Os verbos desta elite esforçam-se tanto para serem capazes de fazer rir como de fazer chorar as pedras da calçada, fazendo para tal todo o tipo de disparates, enfim, fazendo trinta por uma linha para estar sempre na moda e, assim, fazer a cabeça a quem fala. Com eles ninguém faz farinha e, se necessário for, fazem-se de novas ou fazem uma cena. Tudo para estar sempre no escaparate das palavras. Fazem-se notar e todos acabam por escolhê-los em qualquer ocasião: quando estão a fazer as unhas, a fazer horas, a fazer-se ao trabalho ou até a fazer cara de urso.

De uma forma geral, faz-se vista grossa ao verbo fazer, não por simpatia, mas porque ele nos faz o ninho atrás da orelha e nós deixamos de o ver. E assim, transparente, ele vai fazendo as vezes dos outros verbos porque com estes ele faz farinha. E eles não fazem nada. Até faz espécie! Parece que tanto lhes faz. Podiam, pelo menos, fazer-se de vítimas e o verbo fazer e os compinchas faziam-se de novas. Mas não! Não há nada a fazer!

Todas sabem que a atividade de “ocupação ilegal” dos sentidos faz mossa. Mas, esta mesma atividade usurpadora não deixa de ser contraditória: sendo uma marca de pouco esforço por parte dos falantes, é indutora de um acréscimo de esforço interpretativo por parte de quem lê ou ouve. Tão ao estilo dos dias que correm!

 

Pequeno glossário:

fazer das suas: realizar disparates

fazer a boca doce a alguém: agradar para recolher benefícios

fazer as honras da casa: ser o anfitrião

fazer sala: conversar com uma visita

fazer número: não servir para nada

fazer pestana: dormir durante um curto espaço de tempo

fazer castelos no ar: elaborar grandes projetos

fazer das tripas coração: vencer um sentimento de desagrado

fazer rir / chorar as pedras da calçada: ter imensa graça / ser muito trágico ou comovente

fazer disparates: agir de forma errada

fazer trinta por uma linha: fazer imensos disparates

fazer a cabeça a alguém: convencer alguém de alguma coisa

fazer farinha: agir com altivez 

fazer-se de novas: fingir não ter conhecimento

fazer uma cena: manifestar-se publicamente de forma agressiva

fazer horas: deixar passar o tempo

fazer-se ao trabalho: começar a trabalhar

fazer cara de urso: fazer má cara

fazer vista grossa: fingir que não se vê alguma coisa

fazer o ninho atrás da orelha: iludir, enganar 

fazer as vezes de: substituir temporariamente 

fazer espécie: causar estranheza

tanto faz: não importa 

fazer-se de vítima: vitimizar-se 

fazer-se de novas: fingir que se ignora algo 

(Cf. Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea)

 

 

Sobre a autora

Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.