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Contra a exclamação *
Contra a exclamação *

Pontos de exclamação

Acho que nunca usei um ponto de exclamação. Tenho objecção de consciência aos pontos de exclamação. Geralmente, a mais leve aparição dessa sinalefa me desanima a ler determinado texto. E quando aparecem artigos que são manchas compactas de exclamações, nem olho mais. É como se fossem desbafos juvenis. Claro que há génios da exclamação, como Céline e o Capitão Haddock, mas convenhamos que são duas excepções, digamos, absolutamente excepcionais.

O que me aborrece nos pontos de exclamação é a falta de subtileza. O espalhafato. É como se o autor quisesse marcar as suas intenções de modo a quem nem o mais iletrado dos iletrados pudesse passar ao lado. Alguém escreveu que uma pessoa que usa pontos de exclamação é como alguém que se ri das suas próprias piadas. O ponto de exclamação é um modo de fazer a festa, deitar os foguetes e apanhar as canas. E isso não é nada interessante.

Eu percebo que toda a pontuação corresponde a uma necessidade. Os estudiosos da língua explicam que a apontuação serve em grande medida para reproduzir a oralidade e comandar a leitura, em termos de pausas e entoação. A pontuação determina o ritmo de uma frase e exprime determinados conteúdos. No caso da exclamação, o ponto do mesmo nome é usado depois de interjeições, vocativos intensivos e apóstrofes, bem como de imperativos. A exclamação esclarece o contexto. Celso Cunha e Lindley Cintra, na Nova Gramática do Português Comtemporâneo (1984), esclarecem: «Cabe, pois, ao leitor a tarefa, extremamente delicada, de interpretar a intenção do escritor; de recriar, com apoio em um simples sinal, as diversas possibilidades da intenção exclamativa e, em cada caso, escolher de entre elas a mais adequada — se se trata de uma expressão de espanto, de surpresa, de alegria, de entusiasmo, de cólera, de dor, de súplica, ou de outra natureza.» Creio, no entanto, que tudo isto se consegue com uma subtileza na escrita e na leitura que dispensa o tão óbvio e inestético ponto exclamativo.

Nalguns casos, sobretudo no discurso directo, é admissível que surjam dúvidas sobre a altura de voz ou a intensidade, dúvidas que têm de ser corrigidas com uma marca de pontuação ou mesmo com duas (a exclamação e a interrogação, que estabelecem um tom e uma duração). Os espanhóis, por exemplo, não gostam de ambiguidade nenhuma e as frases exclamativas começam logo com um ponto de exclamação ao contrário, para que não haja dúvidas quanto à entoação. É um uso que favorece a legibilidade e prejudica a ambiguidade. Quando a ambiguidade me parece uma das características mais fascinantes da linguagem. O ponto de exclamação, tal como as reticências, pode ser evitado de formas mais engenhosas. É que o ponto de exclamação é uma espécie de bicicleta com duas rodinhas extra, para que os inábeis não caiam ao chão, mas que todos os outros dispensam.

A exclamação é intensidade dos pobres de espírito. É como as pessoas que acham que só são veementes quando desatam aos gritos. A intensidade de uma frase não devia depender de instrumentos tão desajeitados.

Num episódio da comédia televisiva Seinfeld, a personagem de Elaine acaba com o namorado porque ele anotou um recado telefónico e não acrescentou um ponto de exclamação. Uma amiga de Elaine tinha dado à luz e o namorado de Elaine anotou esse recado a seco, sem pontuação. Para Elaine, isso era a prova de que faltava ali intensidade e empatia, exclamações, como se fossem festejos. Como vêem, é a minha tese: a exclamação é um foguetório carnavalesco, que não revela nada de essencial e que empobrece a língua.

Não pretendo embarcar em nenhuma campanha proibicionista, recolhendo assinaturas para o fim da exclamação, muito menos quero a exclamação extinta por um decreto de qualquer Academia. Mas um mundo sem pontos de exclamação é um mundo de linguagem mais criativa, mais subtil, mais ambígua. E é isso exactamente que me interessa na linguagem.

Pedro Mexia

"Público"

Fonte

in "Público", 12 de Maio de 2007

Sobre o autor

Pedro Mexia (Lisboa, 1972), poeta e cronista português, é licenciado em Direito pela Universidade Católica. Colaborou regularmente com as Produções Fictícias. Tem participado em programas de comentário político: O Eixo do Mal , na SIC-Notícias (até 2005) e o Governo Sombra, da TVI24 (desde 2012) . É crítico no jornal Público, onde também assina uma crónica semanal. Publicou os livros de poemas Duplo Império (1999), Vida Oculta (2004) e Senhor Fantasma (2007), entre outros. Autor de vários blogues.