A vitalidade das expressões idiomáticas e fixas na comédia contemporânea
Entre o figurado e o literal nos podcasts portugueses
Construções como provérbios, expressões idiomáticas e outras unidades fixas ocupam um lugar privilegiado no imaginário linguístico dos falantes, uma vez que são fórmulas cristalizadas pelo uso, que circulam na comunidade como unidades prontas a serem mobilizadas, reconhecidas e reinterpretadas. Na comédia, sobretudo em formatos orais como podcasts e programas de rádio, estas estruturas revelam‑se especialmente férteis, funcionando como matéria‑prima para jogos linguísticos que exploram o contraste entre o uso convencional e o desvio inesperado.
Nas últimas semanas, o ambiente descontraído que caracteriza determinados podcasts e programas de rádio tem explorado com particular intensidade esse potencial humorístico. Episódios como “Ninguém POD comigo” ou “As pessoas têm que se acalmar, imediatamente” ilustram bem a centralidade destas construções enquanto catalisadores de riso. Aquilo que, à primeira vista, pode surgir como um deslize, uma confusão lexical ou uma reinvenção espontânea de uma expressão conhecida transforma-se rapidamente num momento humorístico que envolve tanto quem fala como quem ouve, pela cumplicidade que a língua partilhada convoca.
Uma das razões para este efeito reside na incongruência semântica, uma vez que provérbios e expressões idiomáticas pertencem, por natureza, ao domínio do figurado. Quando alguém altera uma dessas fórmulas, seja por troca involuntária de uma palavra, por ambiguidade fonética ou por associação inesperada, produz-se um curto-circuito entre a forma convencional e uma versão inesperadamente literal ou adaptada ao contexto. É precisamente essa discrepância que provoca a reação humorística, já que a expressão continua reconhecível, mas perde a sua estabilidade semântica. Um bom exemplo surge no episódio “Expressões Labregas”, do programa Ninguém POD comigo. Numa conversa descontraída, Ana Garcia Martins (mais conhecida por Pipoca Mais Doce) menciona a frase «estou a fazer Brufen de oito em oito horas», uma expressão que, no uso comum, significa simplesmente «estou a tomar Brufen». No entanto, ao brincar com a formulação escolhida e com o facto de o verbo fazer poder ser interpretado literalmente, a comediante suscita, de imediato, a imagem absurda de alguém que, em vez de ingerir um medicamento, o estaria a produzir manualmente. O humor nasce, assim, do desvio momentâneo para o literal, tornando visível a ambiguidade que normalmente passa despercebida no discurso. O riso resulta da súbita consciência de que a língua, mesmo quando parece automática, está cheia de zonas de contacto entre o literal e o figurado que podem ser exploradas de forma criativa.
A mesma dinâmica de desvio figurado‑literal pode observar‑se no programa As Pessoas Têm de Se Acalmar Imediatamente, apresentado pela personagem Tia Bli (interpretada pelo ator Vasco Pereira Coutinho). A figura da Tia Bli, uma dona de casa abastada, que satiriza indignações quotidianas a partir de uma perspetiva socialmente privilegiada, oferece um terreno particularmente fértil para explorar o choque entre expressões idiomáticas de uso corrente e a literalidade extrema que resulta da sua incompreensão voluntária ou estratégica.
No episódio mais recente, a personagem relata que teve de ajudar o filho nos trabalhos de casa de Português, que consistiam em interpretar o significado de alguns provérbios e expressões populares. Este ponto de partida permite à narrativa cómica expor a distância entre o conhecimento frásico convencional, partilhado pela maioria dos falantes, e a leitura literal e autocentrada que a Tia Bli faz dessas mesmas expressões. Entre os vários exemplos, destaca-se a forma como interpreta a expressão «deitas-te na cama que fazes». Do ponto de vista linguístico, trata‑se de uma expressão idiomática amplamente estabilizada no português europeu, cujo sentido figurado remete para a assunção das consequências das próprias escolhas. No entanto, para a Tia Bli, a expressão não faz qualquer sentido, não porque desconheça o seu uso comum, mas porque recusa a sua aplicabilidade no seu universo social. A personagem insiste que nem ela nem o filho «fazem a cama», uma vez que esse é o trabalho da empregada, a Graça. Ao deslocar a expressão para o seu sentido literal, a Tia Bli cria um efeito humorístico sustentado no facto de a formulação convocar um comportamento impossível na sua realidade quotidiana.
Resumindo, os exemplos analisados revelam como os provérbios e as expressões idiomáticas, apesar da sua aparente fixidez, continuam a ser terreno fértil para a criatividade linguística e para a construção humorística. A comédia contemporânea, sobretudo nos formatos orais, mostra assim que o riso não surge apenas da rutura com a norma, mas também do reconhecimento dessa mesma norma e da forma como ela ecoa na experiência coletiva. Ao desestabilizar por instantes o sentido convencional de algumas expressões, os humoristas revelam não só a riqueza do património frásico do português, mas também a vitalidade de uma língua que se reinventa continuamente no uso quotidiano.
