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A reinvenção da língua portuguesa em Moçambique
A reinvenção da língua portuguesa em Moçambique

Mia Couto

Moçambique é um dos 37 Estados que integra a União Latina, organização que se dispõe a valorizar o património plural e diverso do mundo que se expressa nas chamadas línguas latinas.

Dezasseis escritores de diversas nações foram galardoados desde que, em 1990, foi instituído o prémio de Literatura da União Latina. Este ano, pela primeira vez, o continente africano é contemplado por este prestigiado prémio. O prémio União Latina de Literatura reafirma, deste modo, a grande diversidade das nossas culturas e das nossas geografias.

Jorge Amado falou do Prémio da União Latina como um modo de promover diálogo entre povos. É assim que eu vejo esta distinção: como uma janela por onde nos podemos ver melhor e que nos encoraja a atravessar os territórios de desconhecimento que ainda nos separam. O conhecimento da realidade das nações africanas que integram a União Latina é uma das condições para que esta organização cumpra o seu destino. Não seremos inteiros se não formos todos. Se não teremos espelho se não estivermos igualmente reflectidos numa mesma imagem composta.

Moçambique será para muitos de vós uma nação quase desconhecida. Contudo, o percurso desta jovem nação, desde 1975, ano da proclamação da Independência, é uma riquíssima epopeia de sonhos e utopias, de apostas desfeitas e refeitas contra o peso da História. Esse percurso de guerras e dramas fez-se de materiais humanos sublimes, de histórias individuais e colectivas profundamente inspiradoras. São essas vozes que disputam rosto e eco nas páginas dos meus livros.

A par de línguas de raiz africana, a língua portuguesa é uma das ferramentas de fabricação da identidade nacional e de construção da modernidade em Moçambique. O lugar da língua portuguesa como idioma oficial não pode ser construído de forma hegemónica, à custa da sobrevivência das línguas bantus que são os idiomas veiculares da maior parte dos moçambicanos. Neste contexto multilingue, os moçambicanos estão reinventando a língua portuguesa, ao mesmo tempo que ela os está inventando como corpo colectivo, como sujeitos de uma cultura apta para o afecto e para as negociações com a modernidade.

Os escritores de Moçambique actuam como timoneiros neste processo de construção identitária. Eles estão moldando um idioma que esteja aberto a namorar com os outros idiomas de Moçambique. Por isso, partilho este prémio com todos os meus colegas escritores que usam a palavra para encantar os caminhos da nossa própria construção como nação. Em particular, dedico esta distinção a José Craveirinha que nos ensinou, por via da poesia, que o sermos cultural e linguisticamente múltiplos não nos converte em seres divididos e fragmentados. Ao inverso, nós somos criaturas repartidas, capazes de viajar entre esse arquipélago de identidades de que se constitui a alma moçambicana. Celebro convosco o gosto por essa errância de quem sabe que apenas na viagem pelos outros encontraremos raiz e morada.

Mia Couto

Fonte

alocução de Mia Couto na cerimónia de entrega do prémio literário da União Latina 2007

Sobre o autor

Mia Couto (Beira, 1955) é um escritor moçambicano. Tem uma vasta obra literária muito diversificada, que inclui a poesia, o conto, o romance e a crónica. Foi jornalista, com passagens pela Tribuna, pela revista Tempo e pelo jornal Notícias. Em 1983 estreia-se com o livro de poesia Raiz de Orvalho. Publicou, entre muitas outras obras, Terra Sonâmbula (1992), O Último Voo do Flamingo (2000), Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra (2002) do qual foi feito um filme, O beijo da palavrinha, com ilustrações de Malangatana (2006) e A Confissão da Leoa (2012). Vencedor de numerosos prémios de que se destaca o Prémio Camões em 2013.