O «c» de afecto - Controvérsias - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O «c» de afecto

Arrepia-me ouvir sequestro ser pronunciado como queque

Não serve para nada, o «c» de afecto – a não ser para abrir um «e», coisa de somenos. Por isso, vai deixar de existir, oficialmente, a partir do próximo mês de Janeiro. Para mim, a língua sempre foi esse lugar onde as coisas que não servem para nada podem existir silenciosamente, transformando aquilo que serve para tudo. Um lugar preciso e atópico. Diria: o lugar da utopia, se esta palavra não tivesse sido esventrada pelas trevas da propaganda ideológica. As línguas são seres vivos, sofrem mutações – mas assusta-me esta ideia de que a minha língua deva despir-se de todas as letras que já não se ouvem, esta exclusão do silêncio absurdo que constitui o nó cego do português de Portugal. Aquilo que não serve para nada é um dos maiores tesouros deste país – a arte, da renda de pedra dos monumentos à renda de bilros, do fado ao cinema e à literatura. E a beleza excessiva, arrasadora, inútil, da paisagem.

Explicam-me que o Acordo Ortográfico tornará mais fácil a comunicação entre os diferentes países de língua portuguesa. Admitindo que assim fosse, era preciso que o Acordo representasse uma real uniformização da língua. Vai-se a ver e o Acordo não é mais do que um diplomático tratado de abrandamento teórico das infinitas diferenças. Para cada regra, estabelecem-se batalhões de diferenças. Por exemplo: «o acento agudo ou circunflexo (...) depende do timbre, aberto ou fechado, na pronúncia culta da língua». Na prática, isto significa que o Brasil continuará a escrever Antônio, acadêmico e gênio, e Portugal António, académico, génio. Mas há pormenores ainda mais confusos. O uso do hífen é um deles: «Nas locuções de qualquer tipo (...) não se emprega em geral o hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso». Nestas excepções – aliás, «exceções» – contam-se água-de-colónia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa. Mas não se contam, segundo o texto do acordo, cão de guarda, fim de semana, nem cor de açafrão, cor de café com leite ou cor de vinho. Não sei agora o que fazer com a cor de laranja. Nem com a cor de amora. Estarão as laranjas e as amoras consagradas pelo uso?

Entretanto, o elegante trema, que o Brasil usa – em meu entender, muito bem – para lembrar que o u de tranqüilo ou de seqüestro é pronunciado, vai desaparecer. Pode ser um atavismo, mas arrepia-me ouvir sequestro ser pronunciado, como tantas vezes é nos noticiários portugueses, como queque. Sem o trema, perde-se a densidade semântica do u. Mas que interessa o raio da densidade semântica? Para que serve?

De modo que, quanto ao desacordo implícito no próprio Acordo, estamos conversados. Muita coisa continuará a escrever-se de forma distinta nos diversos territórios desta criativa língua. É isso que atrapalha a circulação dos livros entre os vários países? Sei, por experiência própria, que não: sempre li os escritores brasileiros na sua grafia original e todos os meus livros têm sido publicados no Brasil na sua versão original – ou seja, sem qualquer alteração ortográfica ou vocabular. O que tem dificultado a circulação dos livros, ao nível da exportação, é o preço dos portes. Um livro de edição portuguesa chega às livrarias brasileiras ao triplo do preço de um livro brasileiro, e vice-versa. Por outro lado, esse encarecimento tem feito crescer a edição local, em cada país, de autores dos outros países. Queixava-se Lauro Moreira, o embaixador do Brasil na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), de que não consegue encontrar Machado de Assis nas livrarias portuguesas, dizendo que o Acordo alteraria isso (em entrevista ao JL de 29/8/2007). Ora, na verdade, e sem Acordo, a obra de Machado de Assis – como, aliás, a de inúmeros autores brasileiros, clássicos e contemporâneos – tem vindo a ser consistentemente publicada em Portugal. É até mais difícil encontrar um livro de Eça, à excepção de Os Maias ou O Crime do Padre Amaro. E Aquilino Ribeiro, por exemplo, quase não existe. Porque a dificuldade de comunicação não está na ortografia – está na sintaxe e no léxico. É mais difícil ler Aquilino, em Portugal ou no Brasil, do que Machado de Assis, como é mais difícil ler Guimarães Rosa, no Brasil e em Portugal, do que Eça. E isto só para mantermos a discussão dentro da grande literatura.

Nunca houve acordo ortográfico entre os países de língua castelhana. É verdade que as diferenças ortográficas e lexicais entre esses países são ténues – mas isso porque Espanha teve a imperial inteligência de pedir a contribuição dos outros países para a elaboração do «Dicionário da Real Academia», que rege a língua. No mundo da língua inglesa, a disparidade é imensa e ninguém se rala: cada um usa a língua como quer. Será por isso que o inglês está tão pouco expandido no mundo?

Fazer um acordo ortográfico só para que se perceba que a CPLP existe, francamente, parece-me ridículo. A nossa ministra da Cultura já disse (para desgosto confesso de Lauro Moreira) que, mesmo oficializado, o Acordo levará uns dez anos a entrar em vigor em Portugal. O que, traduzido para português corrente, talvez queira dizer que desta patetice já nos livrámos. Oxalá.

Fonte

in Expresso, de 8 de Setembro de 2007

Sobre a autora

Inês Pedrosa (Coimbra, 1962) é uma jornalista e escritora portuguesa. O seu primeiro romance é A Instrução dos Amantes (1992). Nas Tuas Mãos, em 1997, valeu-lhe o Prémio Máxima de Literatura, e Fazes-me Falta, em 2003, consolidou-a como uma das principais romancistas da atualidade. Ganhou o Prémio Máxima de Literatura com Os Íntimos (2010).