Antologia // Portugal Sobre um simples significante Meados de janeiro. No aeroporto duma capital- leitores eventuais se quereis saber qualterei de ser sincero como sempre o sou e não apenas em geral:o caso que vos conto aconteceu no europeu nepal -um grupo de pessoas num encontro casualdesses que nem viriam no melhor jornalde qualquer dos países donde algum de nós seria naturalde certo por alguma circunstância puramente acidentalemprega no decurso da conversa a palavra «natal»embora a pensem todos na res... Ruy Belo · 9 de julho de 1998 · 3K
Pelourinho O médico e os «abórtos» Um médico do «não», ao comentar na SIC o referendo do passado domingo, pronunciou o plural de aborto com um o aberto que arrepia os puristas. A tendência, é certo, parece ser hoje a de abrir o o no plural, mesmo nos casos em que o plural conserva o o fechado do singular (como /dô-na/, /dô-nas/). Mas, creio, tal tendência é mais obra de doutores que ignorância de iletrados. A quem ouço /a-côr-do/, /a-cór-dos/ – erradamente – é a gente instruída (a... Teresa Álvares · 3 de julho de 1998 · 4K
Antologia // Portugal Brasil Fosse eu pintor ou músico(Pobre de sons, embora! Pálido de cor, que importa!)Sempre haveria alguém que me entendesseEm qualquer canto incógnito do Mundo.Sempre haveria alguém que me dissesse:— Músico, vem! Entra, pintor! — e abrir-me-ia a porta.Mas da palavra eu fiz a minha ferramenta.Sim, da palavra, como os loucos.E quanto sinto e penso unicamente o digo em português,Quase em silêncio, porque somos poucos.Quase em família. E só por uma vez Cabral do Nascimento · 1 de julho de 1998 · 5K
Pelourinho O "milião" "A Folha de S. Paulo" é um dos melhores diários brasileiros. Mas não só em papel. Também na Internet. Tem um serviço de pesquisa bem organizado e um manual de redacção muito útil, que explica coisas complicadas como o que significa, de país para país, um bilião (no Brasil, bilhão). Quis ver, até porque houvera polémica sobre o assunto aqui no Ciberdúvidas. E pude aprender que nós, portugueses, em Portugal, dizemos... "m... Teresa Álvares · 30 de junho de 1998 · 4K
Controvérsias 25 % ficou em casa, outra vez São de interesse as observações que o prezado consulente apresenta sobre a concordância do verbo em frases cujo sujeito é uma percentagem. É assunto um tanto controverso. Por vezes não é fácil apresentar regras fixas. Vejamos, então, as seguintes frases: (1) 25 por cento ficou em casa. (2) 25 por cento ficaram em casa. (3) 25 por cento da população escolar ficou em casa. (4) 25 por cento dos alunos ficaram em casa. (5) 1 por cento dos alunos ficou em casa. José Neves Henriques (1916-2008) · 25 de junho de 1998 · 3K
Antologia // Portugal As costas largas da língua Desagradecidos Portugueses, e desnaturais, são os que, por desculparem sua negligência, culpam a pobreza da língua. Bem sei que se na minha eloquência lançarem prumo, que lhe acharão poucas braças; mas nunca tão desleal serei à terra que na vida me sustém, e na morte consigo me há-de abraçar, que por me escusar a acuse, e por me livrar a condene... D. António Pinheiro · 25 de junho de 1998 · 5K
Pelourinho Evacuar indivíduos? É raro um jornalista empregar bem esta palavra, que já em latim significava «esvaziar». Quando se diz: «Foram evacuados mil portugueses da Guiné-Bissau», o que se afirma, na nossa língua, é que mil portugueses foram esvaziados. Ou seja: cada um desses portugueses foi esvaziado. Ou seja: cada um desses portugueses ficou sem entranhas. Teresa Álvares · 25 de junho de 1998 · 13K
Controvérsias 25 % ficaram em casa, outra vez * Num espaço como este, frequentado por indivíduos de instrução diversa, não me parece muito didáctica a forma como Ciberdúvidas "resolveu" o problema de concordância intitulado "25 por cento dos alunos ficaram/ficou em casa". Um ilustre professor, Fernando V. Peixoto da Fonseca, diz que é singular. Outro professor, não menos ilustre, José Neves Henriques, admite que é singular. Mas poder-se-ia ter dito algo mais esclarecedor. Afonso Peres · 19 de junho de 1998 · 7K
Antologia // Portugal Uso literário do português O uso literário do português começou pelas formas poéticas, sob D. Sancho I (1154-1211) e principalmente quando os fidalgos que regressaram de França com D. Afonso III reproduziram como moda da corte o lirismo trobadoresco, que D. Denis aproximou da tradição popular. A redacção em prosa começou pelos latinistas eclesiásticos, traduzindo em português os Evangelhos e alguns livros moralistas dos Padres da Igreja. Teófilo Braga · 18 de junho de 1998 · 4K
Antologia // Portugal Falta de estilo De uma geração de «linguareiros sem gramática e sem escova de unhas» «Falta-nos a precisão no termo exacto; falta-nos a elasticidade no giro da locução; falta-nos o rasgo pitoresco no desenho da frase; falta-nos a vibrante harmonia na orquestração do discurso. Coçamo-nos, contorcemo-nos, desarticulamo-nos, a querer dizer amor, e nunca nos chega a língua. Temos a prosa histérica, abastardada, exangue e desfalecida de uma raça moribunda.» Texto da autoria de Ramalho Ortigão (1836 — 1915 ), publicado no livro As Farpas, em coautoria com Eça de Queirós. Edição David Corazzi, tomo III, pág. 44 e ss., janeiro de 1884, in Paladinos da Linguagem, 1.º vol., Aillaud e Bertrand, Lisboa, 1921. Título da responsabilidade do Ciberdúvidas Ramalho Ortigão · 9 de junho de 1998 · 4K