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Literatura // Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco: quando a língua da rua entra na literatura

Por ocasião da estreia do filme Memórias do Cárcere

Em 22 de outubro, a estreia de Memórias do Cárcere, filme realizado por Sérgio Graciano e produzido por Paulo Branco, oferece uma oportunidade para regressar a Camilo Castelo Branco (1825-1890) e assinalar os 200 anos do seu nascimento, que se comemorou em 2025. Inspirado na obra homónima, o filme recupera um dos episódios mais marcantes da vida do escritor: a prisão, em 1860, na Cadeia da Relação do Porto, na sequência do processo por adultério que envolveu também Ana Plácido (1830-1895). Foi nesse contexto que Camilo conheceu e recolheu histórias de outros presos, transformando vidas marcadas pela desgraça e pela marginalidade em matéria literária vertida numa prosa que se distingue pela riqueza vocabular, pela versatilidade e pela força expressiva (ler Alfredo Barroso, "Camilo em fuga, com as mulheres e a traço grosso"). 

Assim, em Memórias do Cárcere, Camilo não se limita a recordar a experiência da prisão ou a narrar episódios da vida dos seus companheiros. Dá também espaço às vozes que ouviu, aos modos de falar e às expressões que tornam cada personagem mais concreta. A linguagem participa na construção do retrato humano: revela hábitos, origens, maneiras de pensar e de interpretar o mundo. A adaptação cinematográfica dará a oportunidade de não só retomar contacto com o escritor e o seu tempo, mas também com uma das características mais interessantes da sua obra: a atenção às palavras, às expressões e aos modos de dizer da vida quotidiana. 

Um exemplo expressivo é «bossa das proclamações», que se lê num episódio em que Camilo e um companheiro são surpreendidos por um grupo de guerrilheiros, no cenário da guerra Maria da Fonte (Memórias do Cárcere vol. I, cap. XIII, p. 152). A palavra bossa é usada na aceção de «jeito» ou «aptidão», já como metáfora cristalizada (catacrese) e ainda hoje corrente, por exemplo, em «bossa para o negócio», como abona o dicionário da ACL, ou como «bossa profissional», aqui já alargando a significação para «atitude ou comportamento ditados pela formação académica ou profissional».

No mesmo capítulo, o companheiro promete que, ao chegar ao cimo da rua, «enterr[a] as esporas nos ilhais do macho» (ibidem, p. 154). A força visual das esporas cravadas nos flancos da montada transmite a extrema ansiedade da personagem, algo que uma formulação como «faço o animal andar mais depressa» não consegue.

Em ambos os casos, a expressividade nasce de palavras concretas, de imagens familiares e de uma linguagem ligada à experiência quotidiana. Estes exemplos mostram como Camilo dá às personagens uma voz própria. As expressões não servem apenas para tornar o diálogo mais realista: contribuem para caracterizar quem fala e para criar uma cena que o leitor consegue imaginar. A língua é, neste sentido, parte integrante da narrativa. 

O interesse de Camilo pelos usos populares não se limita, contudo, a Memórias do Cárcere. A sua obra está repleta de palavras e expressões que o escritor regista, explica e, por vezes, defende expressamente. Esta atenção à língua popular tem sido estudada por investigadores como João Paulo Braga2, que analisa os comentários dos narradores camilianos sobre termos e locuções populares. Também Sónia Valente Rodrigues3 destaca a diversidade e a precisão vocabular da obra camiliana, bem como a recriação de diálogos com marcas vivas da oralidade nortenha.

Em Maria Moisés4, uma personagem afirma ter «dois carros e mais um» (Castelo Branco, 2020, p. 73). A expressão designa uma idade avançada e leva Camilo a explicar numa nota que, nas aldeias do Norte, «contam-se por carros de quarenta medidas as idades que excedem dois carros, ou oitenta anos» (Castelo Branco, 2020, p. 73). A imagem de uma medida de capacidade aplicada à idade mostra como a linguagem quotidiana cria formas próprias de representar a experiência.

Em A Morgada de Romariz5, o escritor chama a atenção para o verbo rejeitar, usado no sentido de «arremessar»: «Não me digas isso segunda vez, que te rejeito esta broca à cabeça!» (p. 15). Camilo considera o termo «excelente e onomatopaico» e critica quem se ri de quem o emprega. O comentário é significativo: em vez de tratar o uso popular como uma forma defeituosa de português, reconhece-lhe expressividade e valor.

Também nos Mistérios de Fafe6 surge um uso regional que hoje pode surpreender: a palavra namorada designa, nesse contexto, uma mãe de filho ilegítimo (p. 103). O exemplo recorda que o significado das palavras não é imutável: pode variar de região para região e depender do contexto social em que são usadas.

A curiosidade de Camilo pela língua popular revela, portanto, mais do que um gosto por expressões pitorescas. O escritor escutava as pessoas, observava os seus hábitos linguísticos e procurava compreender os sentidos que as palavras adquiriam nas comunidades. Não via a língua apenas como um conjunto de regras ou como o património fixado nos dicionários: reconhecia-lhe uma dimensão viva, feita de diferenças regionais, experiências partilhadas e usos que a escrita literária podia preservar.

A estreia de Memórias do Cárcere oferece uma ocasião para redescobrir essa dimensão da obra camiliana. Ao levar ao ecrã as histórias que o escritor ouviu e contou, o filme convidará também a regressar às palavras que lhes deram forma. Para lá da biografia atribulada e das histórias de amor trágicas, encontramos um autor atento à diversidade do português e à capacidade da linguagem para dar voz às pessoas e aos mundos em que vivem.

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Referências Bibliográficas

1 CASTELO BRANCO, Camilo (1862). Memórias do Cárcere. 2 vols. Disponível aqui. 

2 BRAGA, João Paulo (2023). «O “dicionário do povo” na linguagem e na metalinguagem de Camilo». In Olho d’Água, 15(1), pp. 6–20. Disponível aqui.

3 RODRIGUES, Sónia Valente (2022). «Manifestações metalinguísticas na obra de Camilo Castelo Branco: estudo preliminar». In Desafios em língua portuguesa: do olhar da linguística textual à perspetiva retórica-argumentativa. Lisboa: Universidade Aberta. Disponível aqui. 

4 CASTELO BRANCO, Camilo (2020). Maria Moisés. Edição de Ivo Castro e Carlota Pimenta. Lisboa: Imprensa Nacional. (Edição Crítica das Obras de Camilo Castelo Branco; Novelas do Minho, VI). Disponível aqui. 

5 CASTELO BRANCO, Camilo (2020). A Morgada de Romariz. Edição de Ivo Castro e Carlota Pimenta. Lisboa: Imprensa Nacional. (Edição Crítica das Obras de Camilo Castelo Branco; Novelas do Minho, IV). Disponível aqui.

6 CASTELO BRANCO, Camillo (1877). Mistérios de Fafe. Lisboa: Livraria de Campos Júnior. Disponível aqui. 

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