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Controvérsias

"Manteu" em lugar de manteve e outros erros

Sobre as incorreções por analogia e simplificação

«A gramática internalizada pelo nosso cérebro funciona por meio de regularização analógica, buscando padrões.»

1489392984317_norma.pngO cérebro humano tem uma disposição biológica para a aquisição da linguagem.

De acordo com boa parte dos linguistas, o ser humano é capaz de adquirir naturalmente o sistema linguístico a que é exposto durante a infância, embora essa capacidade diminua gradualmente ao longo do desenvolvimento: ou seja, crianças expostas desde cedo a uma língua adquirem fonética/fonologia nativa, sintaxe e semântica básicas, morfologia e léxico produtivos.

O refinamento da linguagem vem com o tempo, à medida que o indivíduo começa a ser alfabetizado e depois letrado.

Até que isso aconteça, a gramática internalizada pelo nosso cérebro funciona por meio de regularização analógica, buscando padrões.

Em termos simples... Sabe quando a criança fala "eu sabo", "eu fazi", "eu tinha abrido"?

Então, isso se dá porque a maioria dos verbos da língua portuguesa são regulares, isto é, seguem uma regularidade, um modelo em sua flexão:

Eu amo, tu amas, ele/você/a gente ama...
Eu corri, tu correste, ele/você/a gente correu...
Eu tinha bebido, comido, saído, partido...

Logo, por analogia, as crianças e as pessoas analfabetas (totais ou funcionais) acabam flexionando os verbos da língua portuguesa segundo o paradigma mais frequente.

Ora, se se fala «eu amo», então "eu sabo". Se se fala «eu corri», então "eu fazi". Se se fala «eu tinha bebido», então "eu tinha abrido".

É um processamento lógico do nosso cérebro, que busca simplificar a complexidade flexional dos verbos por meio da regularização das formas linguísticas.

Porém, há mais a dizer...

É essa regularização analógica que leva as pessoas com baixo grau de cultura letrada a falar e escrever "manteu", "interviu", "requis", "proporam", etc.

Afinal, se «ele correu», então "ele manteu", certo? Se «ele partiu», então "ele interviu", certo? Se «ele quis», então "ele requis", certo? Se «eles venderam», então "eles proporam", certo?

Errado.

Quem fala/escreve "manteu", "intervou", "requis", "proporam", etc. revela pouca escolaridade, minguado letramento. E, em geral, pode-se dizer que a culpa não necessariamente é da pessoa, e sim das circunstâncias.

Por sua vez, os indivíduos com alto grau de letramento e cultura falam e escrevem manteve, interveio, requereu, propuseram, etc., uma vez que, historicamente, essas formas verbais já nasceram irregulares e passaram a ser conservadas como verbos irregulares, implicadas por alterações no radical e/ou nas desinências verbais. Esse conservadorismo das formas irregulares no registro culto não é acidental: a escrita funciona como tecnologia de fixação, estabilizando formas que, de outro modo, cederiam à pressão regularizadora da gramática mental.

Quanto mais uma sociedade, como é o caso da brasileira, se distancia da cultura letrada, mais as tendências de mudança na língua se tornam menos controladas pela norma escrita, pela escolarização e mais guiadas por processos internos de regularização analógica e simplificação morfológica – que é o que vem ocorrendo inclusive em linguagem jornalística, considerada por muitos linguistas brasileiros como a real norma culta. Veja isto: https://www.facebook.com/share/p/1P5vVrsa2j/

Enfim, se quisermos uma sociedade altamente letrada, precisamos garantir o acesso amplo e continuado à escolarização de qualidade, o que implica o fortalecimento de práticas de leitura e escrita. Sem a consolidação saudável de uma relação consciente com a norma-padrão como instrumento histórico de estabilidade e expansão expressiva da língua, perderemos de vista a diversidade natural das suas formas de realização.

Se prezamos a verdadeira diversidade, não podemos nos esquecer da tradição.

Para ampliar o seu conhecimento, recomendo o livro abaixo:

https://share.google/cZZNH1LSQE3pcdLzy 

Fonte

Artigo de opinião publciado no Facebook em 18/06/2026.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa