Continuando a surpreender confusões e velhos erros no que se ouve e lê nos media portugueses, registam-se quatro ocorrências: advento, por evento; aprender por apreender; e encrostar por incrustar. Junta-se ainda um caso de descuido: o velho "interviu", por interveio.
Passando aos comentários:
1- Evento, e não advento
Tratava-se do sismo de Mianmar em 28/03/2025, o qual também se repercutiu na Tailândia, e falava-se da importância dos grupos de intervenção cinotécnicos no resgate de vítimas. A emoção pode explicar o equívoco, quando o entrevistado fala de "advento", em lugar de evento, o mesmo que «acontecimento», mas processar mentalmente o léxico tem destas coisas: as palavras pouca diferença têm foneticamente, e dá-se a troca. Convém lembrar que advento significa «chegada», do latim adventum, com o mesmo significado, termo bem conhecido por quem siga o calendário litúrgico cristão e saiba que o tempo do advento é o da preparação do nascimento ou chegada de Cristo. Tudo ao contrário do pretendido, já que o fenómeno ocorre geralmente sem qualquer aviso.
3- «Apreender um microfone», e não «"aprendeu" um microfone»
Relativamente a um incidente de índole xenofóbica em Lisboa, lê-se que «a PSP interveio e aprendeu-lhe o microfone e a coluna» ("PSP trava invasão de propriedade e discurso xenófobo de líder do grupo Reconquista no Martim Moniz", Diário de Notícias, 28/03/2025). O verbo correto é apreender, porque a ação policial se concretizou como confisco de equipamentos de som. Vale recordar que apreender tem origem e semântica muito próximas das de aprender, mas deve continuar a separar-se o que a história afastou. É certo que ambos os verbos têm atestações desde o século XIII, com origem no latim apprehendere (cf. Dicionário Houaiss), mas aprender usa-se hoje com o significado de «adquirir conhecimento ou técnica», enquanto apreender, conservando dois ee que já vinham do latim, ocorre atualmente na aceção de «assimilar, captar cognitivamente», muito próxima, portanto, de aprender, mas também na de «confiscar alguma coisa, impedindo o seu uso», no contexto da intervenção de forças da autoridade.
3- "Encrostar", em lugar de incrustar
O terceiro caso desta breve lista é suscetível de ferir a carapaça (a crosta?) das sensibilidades mais robustas: «Será lançada um versão em prata [...] e outra versão em ouro, com diamante "encrostado" [...]» ("Banco de Portugal lança moeda ‘inteligente’ alusiva ao 10.º Aniversário do jornal O Minho", O Minho, 01/04/2025). Esperando que o equívoco não seja alguma brincadeira do 1.º de abril, refira-se que a forma correta é incrustado, do verbo incrustar, «fixar ou fixar-se fortemente numa superfície, de modo a ficar embutido» (dicionário da Academia das Ciências de Lisboa). Não se pense, porém, que encrostar é clara deturpação de incrustar, pois é verbo dicionarizado, com o significado de «criar crosta» (cf. ibidem), o que não será exatamente o que se tenciona noticiar, muito embora incrustar e encrostar partilhem o mesmo radical latino, «crusta, ae "crosta, revestimento rugoso e endurecido, côdea, tudo o que serve para envolver, cobrir; lâmina, folha, capa, camada, superfície» (Dicionário Houaiss).
3- Interveio, e nunca "interviu"
Velho erro que atraiçoa mesmo os falantes mais experimentados, a forma errónea "interviu" regressou aos ecrãs (CMTV, 28/03/2025) e a um artigo de opinião em publicação de renome: «[...] Daniel Sloss fala sobre um caso real em que não interviu [...]» ("Carta aberta a todos os homens decentes: façam parte da solução e não do problema", Expresso, 31/03/2025). A forma correta é, como todos saberão, interveio, mas é de esperar que "irmãos" do erro em causa, como "interviram", "intervissem" ou "intervirem" (neste último caso, em orações como «quando intervirem», em vez do correto «quando intervierem») continuem a escapar e a ter projeção audiovisual e escrita. Entretanto, nunca é demais repetir: o verbo intervir acaba em -ir , mas deriva de vir , que é irregular e, portanto, não precisa que o regularizem como partir. A gramática, como a vida, não é como a gente quer.