As leituras do verbo fazer
«Fazer Portugal Maior»
O debate em torno da linguagem política traz frequentemente à tona questões de uso, significado e influência entre línguas, como aqui, por exemplo, já se viu. A propósito da recandidatura de Luís Montenegro à liderança do PSD, o slogan adotado, «Fazer Portugal Maior», suscitou observações que vão além do plano político, tocando em aspetos de natureza linguística, nomeadamente a forma como certas construções se aproximam de modelos discursivos internacionais.
Numa primeira leitura, «Fazer Portugal Maior» pode sugerir uma afinidade com fórmulas consagradas no discurso político de Donald Trump: Make America Great Again. Contudo, essa semelhança revela-se sobretudo superficial, já que o funcionamento do verbo fazer em português não coincide inteiramente com o do inglês make.
Em português, o verbo fazer apresenta um valor causativo, podendo significar «ser causa de», «provocar» ou «levar a que algo aconteça». Surge frequentemente em construções como «fazer alguém rir», «fazer crescer a economia» ou «fazer o país avançar» (Dicionário da Língua Portuguesa, Academia das Ciências de Lisboa), nas quais introduz um efeito ou uma mudança de estado. Neste enquadramento, «Fazer Portugal Maior» pode ser interpretado como «tornar Portugal maior» ou «fazer Portugal crescer», entendendo-se maior num plano qualitativo (mais próspero, mais influente, mais desenvolvido), e não estritamente quantitativo.
Ainda assim, do ponto de vista da organização sintática e da produtividade lexical, o português europeu contemporâneo não recorre com grande frequência ao esquema fazer + objeto + adjetivo com este valor resultativo. Embora a construção seja plenamente possível e tenha tradição na língua. encontrando-se, por exemplo, em autores como Machado de Assis – «V. Ex.ª a fez ainda maior» (Epistolário, in Corpus do Português) –, tende, no uso atual do português europeu, a soar menos espontânea do que alternativas como «tornar Portugal mais forte», «fazer crescer Portugal» ou «contribuir para um Portugal mais desenvolvido». A questão parece residir menos na sua correção gramatical do que na sua frequência relativa e no grau de naturalidade percebida em determinados contextos discursivos.
Por contraste, o inglês dispõe de um uso mais estabilizado e produtivo da estrutura causativa make + objeto + adjetivo, como em «make America great», o que contribui para a sua naturalidade e eficácia retórica naquele contexto. Esta diferença ajuda a compreender por que motivo a formulação portuguesa pode ser entendida como estilisticamente marcada ou como indício de influência de modelos discursivos internacionais, ainda que não constitua um decalque direto nem uma incorreção gramatical.
Em suma, «Fazer Portugal Maior» assenta num uso possível e historicamente atestado do verbo fazer, explorando o seu valor causativo. Embora a construção tenha antecedentes na língua portuguesa, situa-se numa zona relativamente periférica do português europeu contemporâneo, aproximando-se mais de estratégias retóricas globais do que das formulações habitualmente preferidas na língua.
