DÚVIDAS

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O nosso idioma

No princípio estava a língua portuguesa

Reflexões afetivas sobre o português no Dia Mundial da Língua Portuguesa

Sem a língua portuguesa, este site, Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, não teria razão de existir, pois é este idioma que possibilita que hoje leitores espalhados pelo mundo aqui cheguem e leiam, por exemplo, estas palavras. No entanto, este texto não é mais um com foco numa análise aos impressionantes números de falantes que usam, nos tempos atuais, o português por esse mundo fora, nem tão-pouco sobre o valor económico, diplomático ou estratégico que a língua poderia ter se os governantes dos países de língua oficial portuguesa assim o quisessem, na medida em que sobre isso já muito se escreveu nesta página e fora dela.

Quero, ao invés, aproveitar o Dia Mundial da Língua Portuguesa, celebrado a 5 de maio, para fazer uma espécie de declaração de amor à língua que me deu o pensamento e me ajudou a organizar o mundo, permitindo que escreva agora estas linhas. Se no princípio era o verbo, certamente que, no meu caso, esse verbo era em português. Pois, foi essa a língua que me permitiu nomear o medo, a alegria, a dúvida e o espanto. No fundo, confesso que, tal como Fernando Pessoa declarou um dia, “a minha pátria é a língua portuguesa”.

Vivemos tempos em que muitos julgam que a língua serve unicamente para comunicar. Como gostaria de lhes mostrar o quanto estão errados. Reduzir uma língua à simples função da comunicação é como reduzir um mapa ao papel e traçado em que está desenhado, apagando os caminhos, as paisagens e as experiências que ele representa. Falar uma determinada língua é herdar uma forma particular de pensar e sentir. No nosso caso, falantes de português, não podemos negar os diminutivos que acariciam ou reduzem, os tempos verbais que nos orientam no tempo ou o modo conjuntivo que nos habituou à hipótese e ao desejo.

Talvez por isso tantas pessoas, que trabalham com a palavra diariamente, falem da língua portuguesa não como um simples instrumento de comunicação, mas como um espaço íntimo de afeto. Ricardo Araújo Pereira, por exemplo, tem insistido, ao longo dos anos, na ideia de que o português pode ser irónico e criativo, sendo uma das matérias-primas fundamentais do seu estilo de humor. Na sua escrita e no seu discurso público, a língua aparece como uma ferramenta que este usa para explorar, brincar e torcer, uma vez que é justamente aí que reside a sua vitalidade.

Também o ator brasileiro Gregório Duvivier tem abordado frequentemente a língua portuguesa como um lugar de pertença e emoção que une dois lugares distantes e divididos pelos Atlântico. Na sua mais recente peça de teatro, “O Céu da Língua”, e no seu novo livro, “À Flor da Língua”, este assinala que a palavras não são exclusivamente partes integrantes do vocabulário, mas que servem inclusive para criar histórias e relações de sentidos, disputas e emoções. Duvivier mostra constantemente que a mesma língua, usada em contextos diferentes carrega oceanos de distância, porém, ao mesmo tempo, cria pontes invisíveis de reconhecimento.

É nesse espaço híbrido, entre rigor e liberdade, entre norma e invenção, que muitos de nós aprendemos a amar o português. Consciente das falhas, das contradições e das heranças difíceis, amar uma língua é também aceitar a sua história, com tudo o que nela há de luz e sombra. É reconhecer que o português carrega marcas coloniais, silêncios impostos e desigualdades, mas também perceber que é através dele que construíram resistências, afetos e novos futuros.

A língua portuguesa é, para muitos de nós, o lugar onde pensamos, erramos, corrigimos, insistimos. É o espaço onde aprendemos que uma mesma palavra pode ser abrigo ou arma, conforme o modo como é usada. Talvez por isso o trabalho de um site como o Ciberdúvidas seja tão importante, uma vez que pode mostrar que não existe uma única forma correta de dizer, apontando diferentes formas de compreender melhor a língua que habitamos e que nos habita.

Por isso, celebrar o Dia Mundial da Língua Portuguesa não deve ser encarado como um momento em que se erguem monumentos ou se proclamam discursos solenes sobre o seu valor e importância, mas uma oportunidade de celebrar a língua como uma casa em permanente construção. Uma casa com sotaques variados, com palavras antigas e neologismos tímidos, com regras necessárias e exceções fecundas. Uma casa onde cabem Camões, Eça, Machado, Pessoa, Sophia e Clarisse, mas também o rap, o humor televisivo, as redes sociais e a fala quotidiana.

Portanto, talvez a melhor forma de celebrar a língua seja continuar a usá-la com cuidado e com ousadia, com respeito e com prazer. Pois, enquanto houver quem pense, sonhe e ame em português, haverá sempre uma pátria possível para habitar.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa