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Pelourinho // Mau uso na comunicação social

«Cancro maligno»?!

Um pleonasmo evitável

A morte do escritor português António Lobo Antunes, uma das figuras mais marcantes da literatura contemporânea em língua portuguesa, foi amplamente noticiada na imprensa. Em algumas dessas notícias, por exemplo no site Imprensa.com.pt, na notícia "Revelada a causa de morte de António Lobo Antunes", ao referir-se a causa da morte, surge a expressão «cancro maligno».

Do ponto de vista linguístico, esta formulação merece ser comentada. Acontece que em português, cancro designa já uma doença oncológica de natureza maligna. Por essa razão, a combinação «cancro maligno» deve ser considerada um pleonasmo vicioso, isto é, uma redundância desnecessária em que se repete uma informação já contida no significado da palavra principal.

O fenómeno não é raro na língua. Há pleonasmos que são estilisticamente aceitáveis ou até expressivos, como «subir para cima» ou «ver com os próprios olhos», mas outros resultam apenas de imprecisão vocabular. No caso em apreço, a redundância parece resultar de uma possível confusão terminológica.

Com efeito, na linguagem médica, a distinção relevante faz-se geralmente entre «tumor benigno» e «tumor maligno». O termo cancro corresponde precisamente aos tumores malignos, por isso, acrescentar maligno torna-se, em rigor, desnecessário.

Assim, em contexto informativo ou jornalístico, seria mais adequado escrever simplesmente cancro ou, se se pretender manter a distinção terminológica, falar em «tumor maligno».

Este pequeno exemplo mostra como certas formulações, embora frequentes no uso comum, podem revelar imprecisões que a atenção à língua ajuda a esclarecer.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa