«Como é possível ter(-)se chegado aqui?»
Uma questão de colocação pronominal
Numa notícia recente na TVI podia ler se a pergunta: «Minneapolis: como é possível ter se chegado aqui?». A inutilização do hífen, aqui, embora adequada em português do Brasil, não o é em português europeu, cuja norma mantém regras específicas de colocação pronominal.
A diferença entre as duas construções é simples de descrever. No Brasil, generalizou-se a próclise e é natural escrever-se «ter se chegado», sem hífen, com o pronome colocado antes do verbo. A Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, documenta esta tendência brasileira, com exemplos que ilustram a anteposição do pronome mesmo na ausência de fatores tradicionais de atração (pág. 317).
Em português europeu, porém, vigora a norma tradicional: com o infinitivo, o pronome liga-se ao verbo auxiliar por ênclise. Escreve-se, portanto, «ter-se chegado». A mesma gramática, na página 316, lembra que, quando o verbo principal está no particípio, o pronome não se pode colocar depois dele e deve unir-se ao auxiliar (proclítico ou enclítico), conforme as regras gerais. Ora, na ausência de fator de próclise, a forma recomendada em Portugal é a ênclise: «ter-se chegado».
A forma escrita na televisão portuguesa aproxima-se, assim, da construção brasileira, mas a pergunta teria sido perfeitamente expressa, no registo europeu, como «como é possível ter-se chegado aqui?». Portanto, nenhuma das formas é errada em absoluto, cada uma é coerente no seu próprio sistema normativo.
Em suma, não se trata de censurar o uso brasileiro, legítimo no seu sistema, mas de notar que as regras da variedade europeia se mantêm distintas e estáveis. Assinalar esta diferença não é rejeitar a diversidade do português, mas recordar que a norma a que a comunicação pública portuguesa habitualmente adere continua a ser a do português europeu, em que ter-se é, neste contexto, a forma adequada.
