O Senegal e a língua portuguesa - Diversidades - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O Senegal e a língua portuguesa
O Senegal e a língua portuguesa
A ação de Léopold Senghor

« (...) Logo em 1961,Léopold Senghor introduziu o português como língua estrangeira no ensino não superior, em  Dacar.(...)

 

Foi notícia, a 3 de fevereiro p.p., o adiamento sine die das eleições presidenciais no Senegal, previstas para 25 de fevereiro deste ano, decretado pelo presidente Macky Sall, eleito pela primeira vez em 2012. Em Portugal, o facto passou despercebido, como sói acontecer com muita da política internacional, especialmente quando os EUA não estão explicitamente envolvidos nos acontecimentos.

Em 1960, o Senegal tornou-se independente e elegeu como presidente Léopold Sédar Senghor (1906-2001), político, escritor, poeta, professor de literatura, primeiro professor africano negro da Universidade de Paris e primeiro escritor africano da Académie Française. Com Aimé Césaire (martinicano) e Léon G. Damas (franco-guianense), desenvolveu o conceito de negritude, que pode ser definido como um movimento prospetivo de orgulho na cultura africana e de reação contra a colonização. Em vida, Senghor recebeu 37 doutoramentos honoris causa, um deles atribuído pela Universidade de Évora em 1980.  Durante o golpe de Estado de 1962, Senghor foi apoiado pelo povo. Reeleito presidente em 1963, ocupou o cargo até 1980.

A primeira viagem de Senghor a Portugal terá ocorrido em 1957. Nessa altura, conheceu Amílcar Cabral na antiga Casa dos Estudantes do Império. Senghor foi um fervoroso defensor da independência das colónias portuguesas em África, tendo mantido intensos contactos com diversos movimentos de libertação. A posição de Senghor relativamente a Portugal, o Brasil, as colónias africanas e a língua portuguesa não é, no entanto, isenta de complexidades e paradoxos, até difícil de compreender aos olhos de hoje. O seu discurso “Lusitanidade e Negritude”, proferido em 1975 na Academia das Ciências de Lisboa, é disso prova: além de revelar profundo conhecimento da literatura portuguesa, expressa o seu encanto pela mestiçagem e pela “xenofilia” dos portugueses. Segundo alguns autores, Senghor terá mesmo estado na origem do conceito de lusofonia.

Logo em 1961, Léopold Senghor introduziu o português como língua estrangeira no ensino não superior, em Dacar. Atualmente, o inglês é obrigatório entre os 7.º e 12.º anos e os estudantes devem escolher uma segunda língua estrangeira no 10.º ano, de entre português, espanhol, alemão, italiano, russo e árabe. No ensino superior, é possível estudar português (língua, literatura e cultura) até ao nível de mestrado, o que atrai inclusivamente estudantes bissau-guineenses, que realizam estudos superiores de português no Senegal; após o mestrado, um número significativo de estudantes realiza doutoramentos em países como Brasil e Portugal. Segundo dados do Camões ICL (2022), haverá atualmente mais de 44 mil estudantes do ensino secundário que escolhem o português, ensinado por cerca de 430 professores senegaleses, em 200 estabelecimentos de ensino público e privado em todo o país; na última década registou-se um crescimento de 150% no número de estudantes. Além de senegaleses, muitos estudantes que escolhem português pertencem às diásporas bissau-guineense e cabo-verdiana residentes no país.

Senghor abandonou voluntariamente o poder em 1980, perante a incredulidade de muitos, por uma razão de princípio (não querer eternizar-se no poder) e uma de facto (os seus 74 anos). Macky Sall não aprendeu com o seu exemplo. Infelizmente, há hoje cada vez mais (candidatos a) gerontocratas que não entendem quando está na hora de dar o lugar a outros.

Fonte

Crónica da linguista e professora universitária  portuguesa Margarita Correia , transcrita, com a devida vénia, do Diário de Notícias de 12 de fevereiro de 2024.

Sobre a autora

Margarita Correia, professora  auxiliar da Faculdade de Letras de Lisboa e investigadora do ILTEC-CELGA. Coordenadora do Portal da Língua Portuguesa. Entre outras obras, publicou Os Dicionários Portugueses (Lisboa, Caminho, 2009) e, em coautoria, Inovação Lexical em Português (Lisboa, Colibri, 2005) e Neologia do Português (São Paulo, 2010). Mais informação aqui. Presidente do Conselho Científico do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) desde 10 de maio de 2018. Ver, ainda: Entrevista com Margarita Correia, na edição número 42 (agosto de 2022) da revista digital brasileira Caderno Seminal.