«Escolas mais bem classificadas», pronomes pessoais, o português rural em Angola e o livro Escrever à Mão
1. Em Portugal, aprovado na generalidade o Orçamento do Estado para 2027, a comunicação social concentra-se agora com afã na classificação das escolas básicas e secundárias de acordo com os resultados alcançados nos últimos exames nacionais. As notícias referem-se ao acontecimento com um sintético anglicismo, ranking, termo que já ganhou aura ritual e, portanto, há anos que se mantém praticamente intacto na oralidade e escrita mediáticas, recusando aportuguesamentos. De facto, não há registo de "ranquingue", e a Infopédia e o Dicionário Priberam acolhem a palavra ranking sem alteração. Mas o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, que lhe concede entrada, remete-a para classificação, o que é justo, em defesa da vernaculidade, embora seja uma solução talvez genérica e, portanto, vaga demais. Sendo assim, parece que o anglicismo continuará em uso até ao final dos tempos para estas provas de avaliação externa. Também à espera do apocalipse está a troca de «mais bem» pelo contextualmente incorreto "melhor" no título «Escola pública melhor classificada na 38.ª posição», que se lia em oráculo no programa Bom Dia Portugal, na RTP Notícias, às 08h00 deste dia. Pelo menos, em Portugal, recomenda-se que o comparativo de bem antes de particípios passados, como é o caso de classificada, seja excecionalmente «mais bem», e não melhor. Sobre este assunto, releia-se uma resposta já antiga, de José Neves Henriques (1916-2008).
Ainda a respeito de incorreções gramaticais na televisão, registe-se uma outra, desta vez em referência a um acidente rodoviário ocorrido em Beja, também neste dia: «"tratam-se" de duas pessoas» (CNN, 30/10/2026, 11h13). Convém lembrar que a forma correta e óbvia é «trata-se de duas pessoas», porque tratar-se de tem sempre uso impessoal, isto é, só ocorre na 3.ª pessoa do singular.
2. No Consultório, salienta-se uma pergunta relativa à colocação correta dos pronomes pessoais átonos nas orações de infinitivo introduzidas por sem (ex., «não saio sem me dizeres a verdade»). Todas as consultas esclarecidas entre 26 e 30/10/2026 se encontram aqui.
3. Em Angola, continua a crescer o número de falantes nativos de português num ambiente linguístico em que as línguas nacionais se mantêm vivas e operantes. Na rubrica Diversidades, o linguista Fernando Chilumbo desenvolve uma reflexão sobre a situação linguística de Angola e sustenta que «compreender o português das comunidades rurais angolanas exige ultrapassar uma visão exclusivamente normativa da gramática».
4. Que impacto pode ter no desenvolvimento humano a dependência do ato de escrita relativamente aos teclados de computador e às possibilidades de textualização automática da Inteligência Artificial? O neurocientista Alexandre Castro Caldas responde à questão no Escrever à Mão (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2026), livro que se apresenta e comenta na Montra de Livros.
6. Quanto aos programas Língua de Todos e Páginas de Português, produzidos pela Associação Ciberdúvidas da Língua Portuguesa para a rádio pública de Portugal, toda a informação se encontra na página principal e nas Notícias.
