A visão de um prémio Nobel, detentor (animais), «sei não», escritores em Óbidos e o português na Escandinávia
1. Em Portugal, as notícias internas centram-se na discussão do Orçamento do Estado, mas, dos ecos de fora, sobressai o anúncio da atribuição do Prémio Nobel da Literatura de 2026 à canadiana Anne Carson*. Como é hábito, os media fizeram projeções e, em referência aos escritores de língua portuguesa nobelizáveis, além de Mia Couto ou Gonçalo M. Tavares, mencionaram também o nome de Lídia Jorge entre os candidatos mais bem colocados. Recorde-se que, a respeito do prémio da Academia Sueca para a literatura, a língua portuguesa só conta com o atribuído a José Saramago (1923-2010) em 1998. Evocando, pois, o Nobel português, e, em especial, o romance Ensaio sobre a Cegueira (1995) cuja epígrafe se tornou famosa – «Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara» –, a rubrica O Nosso Idioma inclui um texto da professora e linguista Carla Marques à volta do verbo ver e do nome visão, como centros temáticos de algumas das lições que Saramago nos deixou.
Uma frase igualmente para a história foi a que Saramago incluiu no seu discurso na cerimónia de atribuição do prémio da Academia Sueca: «O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever.» A palavra sábio tem registo em português desde o século XIII e é uma palavra pan-hispânica, pois registam-se formas praticamente iguais ou semelhantes em espanhol – sabio – e em catalão – savi –, todas com a mesma origem (cognatas), no adjetivo latim sapĭdus ,a, um, a, um, «que tem sabor, saboroso», o qual, por extensão semântica, em paralelo com a evolução do verbo saber, veio a significar «aquele que sabe muito». Observe-se, no entanto, que sábio e saber se relacionam mais com a noção de inteligência (derivado de intellegĕre, literalmente «conhecer ou entender por dentro») do que com a acumulação enciclopédica ou certificada de conhecimentos. Daí a frase paradoxal de Saramago, com a qual o escritor homenageou o seu avô Jerónimo Melrinho e as suas raízes na aldeia ribatejana da Azinhaga. A propósito do prémio Nobel de 1998, de José Saramago e da aldeia da Azinhaga, sugere-se a leitura de "Saramago: 20 anos depois do Nobel", de Anabela Mota Ribeiro.
* Sobre a pronúncia de Nobel, ler aqui.
2. Ainda passando os olhos por linhas jornalísticas, um tema com atualidade é o da controversa consulta pública para a inscrição das «corridas de toiros em Portugal» no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. No contexto do debate sobre proteção e direitos dos animais, chama igual atenção o vocábulo detentor: «Segundo um estudo do ICNF, tínhamos mais de 100 mil cães errantes e à volta de 900 mil gatos na rua. São níveis verdadeiramente assombrosos, estamos a falar de mais de um milhão de animais que não têm detentor» ("Bastonário dos veterinários: 'Se tenho um animal, tenho de o identificar. Ou sim, ou sim', Público, 04/10/2026). Referida a animais de companhia, esta ocorrência de detentor surpreenderá quem empregue tutor numa aceção registada dicionaristicamente: «indivíduo responsável por um animal de estimação» (Infopédia). Não estando este uso incorreto, concorre com ele a palavra detentor, atestada e oficializada em Portugal, em textos jurídicos, como sucede com o Decreto-Lei n.º 314/2003, de 17 de dezembro, onde se lê, no artigo 2.º, "Definições": «Para efeitos do disposto no presente diploma entende-se por: [...] d) 'Detentor' qualquer pessoa, singular ou colectiva, responsável pelos animais de companhia para efeitos de reprodução, criação, manutenção, acomodação ou utilização, com ou sem fins comerciais [...].»
3. À pergunta «Sabes quem ganhou o prémio Nobel de 2026?», a resposta pode ser «não sei» ou, com reforço, «não sei, não», frase em que a vírgula antecede a repetição do advérbio. Contudo, em certas regiões do nordeste do Brasil, informalmente, muitos falantes optam pela negação adverbial depois do verbo e dizem «sei não». No Consultório, comenta-se este regionalismo sintático, bem como outros tópicos: a expressão «concordar em discordar», os verbos denunciar e esperar, a concordância com todos, a ambiguidade frásica, o termo limitariansimo, a diferença entre laico e leigo, e a conjunção nem.
4. Nas Notícias, assinala-se o festival FOLIO, que decorre até 18/10 em Óbidos. É um encontro que reúne escritores e artistas de diferentes áreas, numa programação recheada de eventos e atividades. Nesta edição, tem especial relevo a participação de outro escritor contemplado com o prémio Nobel, o norueguês Jon Fosse.
5. Temas dos programas que a Associação Ciberdúvidas produz para a rádio pública de Portugal: o ensino do português na China e as VII Jornadas Pedagógicas de Língua Portuguesa na Escandinávia, que se realizam entre 29 e 30/10 em Gotemburgo, na Suécia. Mais informação na página principal e nas Notícias.
