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Os espelhos de Madrid

Ramiro Fonte, director do Instituto Cervantes em Lisboa

«Quem me escolheu para este lugar achou que nós, os escritores galegos, temos uma particular sensibilidade para entender a cultura portuguesa», afirma Ramiro Fonte, poeta e ficcionista, actualmente a dirigir o Instituto Cervantes de Lisboa. Diz-se «embaixador das culturas de Espanha» e acha útil promover a relação cultural entre a Galiza e o nosso país, uma relação que, julga, pode ser desenvolvida.

«Verifico, nos contactos com meios portugueses, que ser galego me aproxima, me faz mais facilmente ‘um deles’. Há a percepção de que portugueses e galegos partilhamos muita coisa. Na Galiza existe também esse interesse, mas tem de reconhecer-se que ele já foi maior. O Portugal hoje em foco na Galiza - os grandes arquitectos, os grandes escritores - é aquele que nos transmitem de Madrid, onde estão os ‘media’ de grande impacto, os que determinam a imagem.»

«Depois, em Espanha existe a convicção de que Portugal é um país fácil de entender. Ora, é exactamente muito complexo. Deixa-se conhecer, decerto. Mas na vida portuguesa há zonas de grande privacidade, de um enorme recato, onde um estrangeiro nunca será admitido. São zonas de mistério, de duplicidade moral, de segredo. Pense-se só nas complicadíssimas formas de tratamento. Portugal não mudará como país enquanto elas se mantiverem.»

«Mas, note-se, também a opinião sobre a Galiza aqui reinante é definida na capital espanhola. Na realidade, Portugal e Galiza olham-se um ao outro nos espelhos de Madrid e contentam-se, habitualmente, com essa imagem.»

Fonte

Sobre o autor

Fernando Venâncio (Mértola, 1944) formou-se em 1976 em Linguística Geral, na Universidade de Amesterdão. Aí se doutorou em 1995, com um estudo sobre as «ideias de língua literária em Portugal no século XIX». Publicou estudos sobre «brasileirismos em Portugal», as reformas ortográficas e o Português Fundamental. Tem escrito no Jornal de Letras (JL), no semanário Expresso e na revista Ler. É autor dos romances Os Esquemas de Fradique (1999) e El-Rei no Porto (2001) e da antologia Crónica Jornalística. Século XX (2004).