As Aprendizagens Essenciais de Português e o cânone escolar
A leitura do ensaio de Inês Gama sobre a revisão do currículo de Português suscita uma reflexão crítica que, não sendo exaustiva, procura problematizar um ponto específico da sua argumentação.
A autora defende, de forma pertinente, que José Saramago não deve ser comparado nem substituído por Mário de Carvalho, recusando uma lógica simplista de equivalência entre autores literários. Tal posição reconhece a singularidade estética e histórica de cada escritor e afasta uma visão redutora do cânone. No entanto, quando confrontada com a atual configuração das Aprendizagens Essenciais — que obriga o professor a escolher entre obras de Saramago e de Mário de Carvalho —, esta posição revela uma tensão que merece análise mais cuidada.
Com efeito, se dois autores não são comparáveis nem substituíveis entre si, então a imposição de uma escolha exclusiva entre ambos introduz, na prática, uma lógica de substituição que a autora teoricamente rejeita. Não se trata apenas de uma questão de flexibilidade curricular, mas de um modelo que obriga a tratar como alternativas aquilo que se afirma não ser equivalente. Neste sentido, a possibilidade de Saramago deixar de ser estudado por via dessa escolha não é um efeito secundário irrelevante, mas antes uma consequência direta de um princípio organizador discutível.
Por outro lado, a autora propõe que o foco da discussão não deve residir na presença ou ausência de Saramago no currículo, mas antes na capacidade da escola de formar leitores competentes, críticos e sensíveis à linguagem literária. Este é, sem dúvida, um ponto central e relevante.
Contudo, a sua formulação tende a secundarizar a importância da definição de um corpus comum de leituras, como se esta fosse uma questão meramente acessória.Ora, a escolha de autores e obras obrigatórias não é neutra: envolve decisões sobre o património literário a transmitir, sobre as referências culturais partilhadas e sobre o próprio papel normativo da escola. Acresce ainda que o enquadramento retórico do ensaio, nomeadamente através da metáfora das «trincheiras discursivas», pode ser interpretado como uma forma de desvalorização das posições divergentes, contribuindo, paradoxalmente, para a mesma polarização que se pretende criticar.
Em suma, embora o ensaio de Inês Gama apresente contributos relevantes para o debate sobre o ensino do Português, a sua argumentação revela uma tensão entre princípios teóricos e implicações práticas, bem como uma tendência para hierarquizar as questões em discussão de modo discutível. Reconhecer a centralidade da formação de leitores não implica desvalorizar o debate sobre o cânone escolar; pelo contrário, ambos os planos são indissociáveis e merecem ser considerados de forma articulada.
