Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Sobre o uso dos sufixos -douro, -tório e -dromo
No Brasil, usamos os seguintes termos: “inalador” (aparelho em que se fazem inalações), “provador” (cabina em lojas para se provarem roupas), “puxador” (espécie de maçaneta pela qual se puxa uma gaveta, abrindo-a), “babador” (peça de pano colocada sobre o peito de uma criança, abaixo da boca, para aparar a baba, quando come), “respirador” (máscara, da qual há diversos modelos, pela qual se respira). Diante destes fatos pergunto-lhes: o correto não seria, respectivamente: “inaladouro”, “provadouro”, “puxadouro”, “babadouro”, “respiradouro”? O lugar onde se prova uma roupa, por exemplo, deve ser “provadouro”, que significa lugar onde se prova. “Provador” seria o homem que prova a roupa. Se quem prova é mulher, então, seria “provadora”. É curioso notar que, no Brasil, aquele aparelho, com diversos modelos, onde se bebe água, em escolas, escritórios, lojas, lugares públicos, etc, é “bebedouro” e não “bebedor”. Os sufixos “douro” e “tório” têm este sentido de «lugar onde se pratica uma ação ou objeto pelo qual se pratica determinada ação», fato que parece meio esquecido aqui no Brasil. Estes dois sufixos, aliás, vêm sendo substituídos erroneamente por “-dromo”, que significa “corrida” ou “lugar para correr”. Exemplos: “autódromo” = «lugar para corrida de autos ou automóveis»; “aeródromo” = «lugar por onde correm aeronaves para alçar voo»; “hipódromo” = «lugar onde correm cavalos, etc.» Por aqui forjaram-se as seguintes “pérolas”: “fumódromo” (ala de restaurante onde se pode fumar); “comemoródromo” (lugar onde se comemora a vitória da seleção brasileira de futebol ou de algum time em uma partida); “sambódromo” (pista para desfile de escolas de samba no carnaval, em geral, ladeada de arquibancadas para os espectadores); “escovódromo” (sanitório especial construído nas escolas para as crianças escovarem os dentes); “camelódromo” (área ou edifício onde os camelos vendem as suas bugigangas). Creio que ficariam melhor assim: “fumadouro”, “fumatório” ou “ala de fumantes”; “comemoradouro”; “escovadouro” ou “escovatório”; “cameloaria”. Sobre o que foi aqui ventilado, peço a opinião do Ciberdúvidas. Muito obrigado.
Ney de Castro Mesquita Sobrinho Vendedor Brasil 4K
Não há uma fronteira semântica nítida entre os sufixos -dor, -douro e -tório, porque eles coincidem em parte das respectivas significações. Na Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra (pág. 99), os sufixos -douro e -tório formam nomes que designam «lugar ou instrumento da a(c)ção; mas alguns nomes formados com o sufixo -dor também podem assumir o valor de «instrumento da a(c)ção»: regador, interruptor (ibidem). Além disso, Evanildo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa, Rio de Janeiro, Editora Lucerna, 2002, pág. 358) inclui os sufixos -tor, -dor, -sor e -or como formador de nomes não só de agente (narrador), mas também de instrumento e lugar (p. ex., corredor). Não vejo, portanto, impedimento para o uso dos termos em -dor que o consulente aponta e sobre os quais tem reservas. Quanto à produtividade de -dromo no português do Brasil, não vejo porque há-de este sufixo ser condenado. As palavras que se formam com ele mostram que -dromo é já um elemento de formação que se desligou da sua origem grega para assumir o sentido geral de «espaço de uso cole(c)tivo». Por outro lado, como falante de português europeu, reconheço que, em Portugal, os nomes brasileiros acabados em -dromo que são mencionados na pergunta teriam problemas de aceitabilidade. Assim, não me cabe a mim intervir na avaliação de um uso que é sobretudo da competência de quem define a norma do Brasil.
Carlos Rocha