Portugal / Brasil: diferenças de pronúncia - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Portugal / Brasil: diferenças de pronúncia

Na resposta “cacofonias”, de 7/1/98, José Neves Henriques escreve: «Nem todos são de opinião de haver cacofonia em “alma minha gentil”, porque, dizem, no tempo de Camões pronunciavam assim: /álmà minha/.» Portanto, existe a tese de que era mais aberta a pronúncia das vogais no século XVI, em Portugal, o que influenciou a prosódia da variante linguística do português do Brasil.

Mas não sei se Fernando V. Peixoto da Fonseca estará de acordo com essa tese, quando, na resposta “Origem da Língua Portuguesa no Brasil”, de 19/3/99, atribui as diferenças de pronúncia entre ambos os países «fundamentalmente ao adstrato linguístico dos escravos, que falavam diversas línguas africanas, sobretudo de Angola, da serra Leoa, da antiga Guiné, etc.»

Poderá o indispensável Ciberdúvidas esclarecer esta aparente contradição?

Raul Santos Ferreira Lisboa, Portugal 4K

De facto, neste ponto não estou de acordo com o meu douto Colega e bom Amigo Dr. José Neves Henriques, o que aliás raramente sucede, pois temos quase sempre as mesmas opiniões.

Remeto para o grande foneticista português A. R. Gonçalves Viana, o maior que tivemos, sobretudo para o que escreve na sua notável Exposição da Pronuncia Normal Portuguesa (Lisboa, 1892) §§ 58 a 70 (considerações sôbre a pronuncia do português do centro do reino no tempo de Camões), onde se lê designadamente: «os falares brasileiros [...] não representam [...] um português arcaico do continente [...] em estado de boa conservação. [...] Os dialectos do Brasil [...] revelam, decerto, muitos factos de interesse a respeito do léxico arcaico, pouquíssimos que elucidem a fonologia ou a sintaxe dos tempos do descobrimento e escassa colonização europeia das Terras de Santa Cruz». E mais adiante transcreve os aa finais das três primeiras estâncias dos Lusíadas conforme a pronúncia do século XVI, atribuindo-lhes a pronúncia fechada (= â) que actualmente se mantém e já era antiga.

F. V. Peixoto da Fonseca