Paralímpico vs. paraolímpico, de novo - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Paralímpico vs. paraolímpico, de novo

1. A realidade: as duas formas alternam no uso em Portugal. Em Angola, existe inclusive um Comité Paralímpico Angolano. No Brasil, prefere-se quase exclusivamente "paraolímpico".

2. São citados dois dicionários: o Houaiss e o da ACL. Ora, os dicionários, por mais prestigiados que sejam e por mais que nos deslumbrem, deverão, claro está, ser consultados com espírito crítico. Acresce que, pela sua natureza, são obras em permanente desactualização. E, no caso presente, incompletas e erradas. Vejamos:

3. Incompletude: o Houaiss tem "paraolimpíada" mas não regista "paraolímpico", sendo que o adjectivo é, de longe, muito mais usado que o substantivo. (Note-se, de passagem, que o Houaiss sequer regista vocábulos que utiliza nas suas próprias explicações: veja-se o vocábulo "subcomposto", usado na explicação citada de "para", que em vão procuraremos como entrada lexical.)

O dicionário da ACL, por seu turno, não regista o encontradiço "paralímpico" ao lado de "paraolímpico".

4. Erro: um e outro dicionários assumem nos vocábulos em causa a presença de um prefixo "para" de origem grega. Ora, parece não haver dúvida de que as formas portuguesas foram moldadas na forma inglesa "paraolympics". Por seu turno, esta última é o resultado de uma composição do mesmo tipo que nos deu "transistor", no caso em análise: para(plegic) + (O)lympics.

5. Não sendo, pois, caso de prefixação com o tal "para" de origem grega, cai pela base o raciocínio expendido por Ramilo e, anteriormente, por Peixoto.

6. Não é de excluir a produtividade futura de um elemento de composição "para", em apelativos de actividades relativas a deficientes, por exemplo: paradesporto, paralazer, etc., sobretudo à medida que se for dando maior atenção às necessidades específicas deste grupo de cidadãos. Mas isto é já futorologia.

Carlos Ferreira Suécia 4K

Ponto 1

Nos países de língua portuguesa e mesmo dentro de Portugal coexistem várias grafias para uma mesma palavra, pois o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, proposto em 19901, com a participação do Brasil e dos PALOP, não chegou a entrar em vigor, pelo que cada país adopta a sua própria ortografia:

Em Portugal:

– O Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa 2001 adopta a forma "para-olímpico".

No Brasil:

– No Dicionário Houaiss (versão do PB) aparece "paraolimpíada" para designar o mesmo conceito.

Em Angola (como diz):

– As entidades oficiais adoptaram a grafia "paralímpico".

O Acordo Ortográfico, no que diz respeito ao uso do hífen nas formações por prefixação (como é o caso de para- + olímpico), sanciona a forma não hifenizada, o que está em desacordo com a opção tomada no Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa.

Ponto 2

Esses dicionários são consultados não por deslumbramento mas sim porque, não sendo realmente normativos, são dicionários de referência, na medida em que foram criados de acordo com princípios linguísticos explícitos. É impossível fazer um dicionário que contenha todas as palavras da língua, seja pelo facto de serem muito novas, seja pelo facto de serem muito velhas, seja pelo facto de serem muito específicas ou próprias de uma comunidade muito restrita. Restam-nos, assim, dicionários mais e menos actualizados. Não considero que os dicionários consultados estejam muito desactualizados, pois só foram editados em 2001.

Ponto 3

Como diz, no Dic. Houaiss só está registada a palavra "paraolimpíada". Não encontramos "paraolímpico", mas o adjectivo "olímpico" está dicionarizado. É perfeitamente possível e correcta a ocorrência do adjectivo "paraolímpico", formado pelo prefixo para- + o adjectivo olímpico, tal como é correcta a forma "paraescolar".

O Dicionário da ACL não regista "paralímpico" provavelmente porque não sanciona essa forma, do mesmo modo que não regista o adjectivo "massivo", optando por apenas indicar a forma "maciço".

Ponto 4

A sua descrição poderá ser válida para explicar a origem da forma "paralímpicos", que não aparece em nenhum dos dicionários consultados. No entanto, não o será certamente para explicar a forma "paraolímpicos" (ou "para-olímpicos"). Tudo indica que esta palavra foi, de facto, construída em português, de acordo com as regras morfológicas da nossa língua. De outro modo, não é possível explicar a presença da vogal -o-. Se a palavra foi importada sem esse segmento vocálico, por que razão haveriam os falantes de acrescentá-lo?

Talvez queira argumentar que a palavra foi, na verdade, importada com esse segmento, como sugere na sua contestação. Ora, numa consulta à internet, verifiquei que a forma "paralympics" é usada oitenta vezes mais que "paraolympics", pelo que essa hipótese fica excluída em definitivo.

Se relacionarmos o significado de "paraolímpicos" com outras palavras que integram o mesmo prefixo, vemos que a sua construção em português é perfeitamente plausível. Do mesmo modo que "paramedicina" designa o «conjunto de actividades relacionadas ou complementares à medicina» e "paramilitar" o «que está organizado de forma idêntica à do exército», "paraolímpicos" designa algo que está relacionado e é organizado de forma idêntica à dos (jogos) olímpicos (na verdade, os paraolímpicos até são realizados no mesmo local e logo após estes), com o sentido específico de apenas neles participarem as pessoas com deficiência (não só paraplégicos).

Ponto 5

O raciocínio expendido baseia-se em factos concretos, mormente as propriedades de construção de palavras em português.

A minha explicação só cairá pela base quando, servindo-se de argumentos linguísticos comparáveis, me provar que a hipótese da importação do inglês com introdução anómala da vogal -o- é mais credível.

Ponto 6

A evolução de uma língua passa também pela sua capacidade de criar palavras novas – os neologismos – e nessa perspectiva concordo plenamente consigo.

O instituto em que trabalho (ILTEC) está a desenvolver neste momento um projecto sobre a linguagem dos meios de comunicação social e um dos estudos em preparação é sobre os neologismos que aparecem no “corpus” e os processos mais frequentes de formação de palavras. Assim que estiver concluído, daremos conhecimento dos resultados a que chegámos2.


1Acordo Ortográfico já em vias de aplicação, posteriormente a esta resposta.

2Também já depois da data desta resposta, o MorDebe, entretanto já em linha, regista paraolímpico (masc.), paraolímpica (fem.), bem como os {#respectivos|respetivos} plurais. Assim o faz, também, o  Grande Dicionário da Língua Portuguesa (Porto Editora, 2004): paolimpíadas e paraolímpico. Veja-se, ainda, o que sobre este tema recomenda a Associação de Informação Terminológica
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Maria Celeste Ramilo