O sistema de transcrição Hepburn do japonês e a fonética portuguesa do Século XVI - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O sistema de transcrição Hepburn do japonês e a fonética portuguesa do Século XVI

O sistema de transcrição fonética Hepburn estará por alguma forma relacionado com a fonética portuguesa do século XVI através da transliteração organizada pelos monges jesuítas portugueses que viviam no Japão naquela época? Pergunto isto, porque a designação japonesa dada em caracteres latinos que eu conheço como “Dojotyo” (director ou responsável que preside um “dojô” = recinto de prática religiosa ou arte marcial), quanto eu sei, deve ser proferida “dô-jô-tchiô”, pois a consoante /t/ representada no grupo fonético “tyo” com o apoio da semivogal /y/ é palatalizada, tal como ainda hoje boa parte dos brasileiros pronuncia o vocábulo /tio/ (tchio) designação para irmão dos pais, porém diferençado apenas pelo quase emudecimento da semivogal /y/ do japonês /tyo/ que se realiza nesse contexto quase como “tcho”. Como eu também sei que os japoneses durante a Segunda Guerra Mundial usaram um sistema de criptografia baseado precisamente nessa transliteração organizada no século XVI, creio que não será nada extraordinário que o americano Hepburn o tenha rebuscado no século XIX.

Wilhelm Zetzsche Editor Porto, Portugal 2K

Só para situar esta questão, começo por esclarecer que o sistema Hepburn de transcrição do japonês foi criado pelo missionário americano J. C. Hepburn (1815-1911), que publicou em 1867 o primeiro dicionário de inglês-japonês. Quanto à hipótese levantada, ela é sugestiva, mas, sem querer rejeitá-la, porque não tenho elementos que a confirmem ou infirmem, parece-me que estudos de filologia e linguística do século XIX  já representavam as consoantes dentais palatalizadas como "ty" e "dy". Ignoro se elas reflectem alguma convenção anterior ao desenvolvimento dos estudos linguísticos em finais do século XVIII, graças à investigação sobre o indo-europeu.

É possível que o conjunto dos missionários jesuítas no Oriente (incluía falantes de castelhano) tenha recorrido ao grafema <y>, porque, tendo este tradicionalmente o valor de uma semivogal, permite figurar a articulação mais próxima dessa dental em japonês. Mas não creio que algum dos jesuítas portugueses pronunciasse ou conhecesse dentais palatalizadas na língua materna. É que a palatalização destas consoantes na variedade brasileira pode não ser contemporânea da missionação portuguesa no Japão; mas, mesmo que o seja, não tem de ser generalizada aos falares portugueses do século XVI.

Carlos Rocha
Campos Linguísticos: Pronúncia; Transcrição Fonética